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Cardilium

Cardilium

Palavras por ver o sol um dia XXVIII

"...Um frio de rachar fragmenta-me a face. Sinto os olhos encovados, como se se escondessem do frio abrupto e inclinado, que me faz caminhar rápido em direcção a casa, sabedor que me acolhe um terno sentir, uma doce segurança e um confortável aconchego. Cada passo a mais dado, é um passo a menos por dar. O rio, transeunte confirmado e normal da cidade, adormece invernoso e enfumarado no seu leito. Apetece-me confrontar a minha resistência e balançar-me na noite cândida e inacabada. Sôfrego, disperso-me de mim próprio e elevo-me nas minhas recordações.

 

Outrora, verti aqui no extenso deste jardim, papoilas coloridas que me enfeitaram de luz a alma. A alameda construída, depois de desmanchada a fábrica velha, modificou a minha infância e adequou-me a uma existência induzida, elegível do agrado que julguei ser importante existir fora de mim. Uma agradabilidade distante e distorcida, construída por uma disparidade eloquente, de aceitação e presença. O menino que se passeou do lado marginal desta avenida, é hoje o homem que se mantém preso nas alegorias cáusticas da vida, desenhadas por questões existencialistas e de um não saber sequer, se saber alguma coisa, interessa ou importa na teoria vivente, claustrofóbica e inadequada que é o amontoado de dias a que chamamos vida, como se fossem um monte de trapos apregoados numa feira semanal a preço “de excedente”.

 

Os dias, a vida, não tem valor negociável ou saldos que se proclamem, ou muito menos se celebrem. Comemorar mais um ano não é nenhum motivo extraordinário de confraternização. Sou avesso ao assinalamento de datas. Isso castra-me. Inibi-me. Não me seduz. É infértil. É piroso e envergonha-me. Gosto de festejos imprevistos e inesperados. De música desconhecida e descoberta. De sorrisos espontâneos e voluntários. De palavras novas e adolescentes, passiveis de crescimento sensorial. De frases com “sentidos”. De cheiros promíscuos e sofridos. Gosto de resistir e de me suportar.

 

Aqui, no lado ribeirinho desta avenida marginal, choro com os chorões que penteiam o rio. Choro de saudade e presença..."