Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cardilium

Cardilium

Livro (s)

" ... pego no livro mais do que uma vez, apalpo-o, desfolho-o; olho a capa, a contracapa, leio um parágrafo desgarrado a mais de meio do livro, pouso-o.

 

Repito o movimento: pego no livro mais do que uma vez, apalpo-o, desfolho-o; olho a capa, a contracapa, leio um parágrafo desgarrado a mais de meio do livro, pouso-o.

 

Depois, preparo uma cadeira de plástico na minha varanda, torce-se quando me sento, ou é fragil, ou estou com peso a mais. deve ser como eu, fragil e com peso a mais.

 

Alinho a cadeira com a lua e dou luz à minha leitura, fico absorvido pela madrugada, leio até o dia me dar com o sol na cara e me lembrar que a noite já se tinha plantado do outro lado do mundo.

 

Não conseguia parar de ler, até que leio um ajuntamento de palavras que diziam:

- és no fundo tu o teu mundo, a tua líbida vontade de viver sem corpo, a mulher que vem passar a ferro e o peito avantajado pelo segredo do teu olhar, a senhora que te faz a baínha das calças, se ajoelha e te olha de cima para baixo e pergunta: "está bem assim" e eu respondo duas distintas respostas; "sim está bom" e uma outra que grita dentro de mim em silêncio que tem vontade de lhe pegar na nuca e a trazer até mim.

 

És afinal o Sr. que se constrói e o pensamento do que és. Há vozes dentro de mim em constante ebulição. De seguida meto ramos de alecrim em mim, deixo ferver e, purgo-me.

 

Não entendo em mim próprio o que em mim próprio existe - 

 

Pego no livro, descanso-o para me descansar a mim, e adormeço até que o meu corpo me acorde.