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Cardilium

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Descamisada (estado novo? ainda há quem aprecie, boa viagem!)


Descamisada (estado novo? ainda há quem aprecie, boa viagem!)

 



As paredes claras guardam a solidão. Quando a porta se abre e entra o frio sem anunciar a sua intenção. As mulheres na esquina conversam sobre o que olham e a forma como olham. Não há duas mulheres iguais.

 



Mais ao largo, as motorizadas ganem fumo e os motores esforçados e cansados sobem a encosta. A manhã será passada entre os animais e as plantações.

 



Os filhos foram à escola no mesmo autocarro que os trará ainda cedo mas já de noite. Hoje espero o meu rapazote com ansiedade, tenho carta da França, do meu emigrado marido.

 



Será que é hoje que o rapazote vai ler nas letras que ele tem uma amante? daquelas de decote ousado e perfume oferecido pelo corpo lá naquela terra que nem sei ser longe ou perto.

 



Maldita sina a minha que não me faz viúva. Um vagabundo mal cheiroso que me fez a maior fortuna que tenho, o meu João. Já podia morrer o estroina. Não me importava. Melhor era, que abrir todas estas cartas que não sei ler, sem um tostão.

 



Para que quero eu saber se ele andou de elevador num prédio grande. Ou se lá existem sinais com luzes que mandam andar e parar os carros. Ou se, só uma rua, é maior que aqui a terra toda. Ou se lá existe liberdade e não há guerra em Angola e Moçambique.

 



Eu quero é que a maresia faça as couves verdinhas e fortes, e o sol aqueça o trigo. E que o patrão me dê trabalho de sol a sol e umas apalpadelas na descamisada. E que eu não entenda as noticias, nem o que o Sr. padre diz na homilia. Eu gosto de não saber escrever porque sei cantar. Eu gosto de dormir farta de cansaço de uma jornada bem aviada e jorna escassa.

 

Eu gosto dos pedaços de carne que os meninos da D. Efigénia não comem e dão ao meu João. Eu gosto que o meu João ensine os meninos a fazer as contas da escola e a ler as letras do livro que lá lhe deram.

 



Mas o que eu queria mesmo e gostava muito, era de ver o mar. Disseram-me que era verde e azul anil. Que grita e é forte como um trovão. Que sobe e desce pela areia e que se põe com o sol. Mas o mar é longe. O Sr. Disse-me para me deixar de ideias porque o mar fica a mais, do que uma jornada de distancia.

 



Já tenho pensado que quando já não for precisa ao meu João, fujo para o mar… e mergulho na liberdade que ele deve ter.