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Cardilium

Cardilium

Afago-me. Felizmente há luar!

Dei por mim a fumar ao espelho, irreconhecível. Carrego no olhar esperanças. Esperanças são mais que uma, são desesperançadas despedidas, vicissitudes de palavras que perdem o sentido de tão gastas e repetidas que estão. As palavras esgotam-se e escasseiam. Felizmente são regeneradas num termo comum hoje em dia. São recicladas e soam difusas. Reciclam-se as palavras, fecundam-se e inventam-se outras novas por finar.



Olho-me a um espelho novo que não está gasto pelo uso do meu olhar. Contemplo o desconhecimento e admiração do espelho de mim próprio. Apresento-me. Sou o J, o eu feito de mim próprio!



Reflectido, vergo-me numa vénia muda de palavras, elegante de modos. Sou uma visão errante, de um eu meu, ignorado. Afago-me num abraçado soluçado, desentendido e desconhecido afago. Sozinho num normal acto irreflectido, volto o espelho para a parede, não quero mais cumprimenta-lo à minha passagem.


Olhos nos olhos de mim mesmo, revejo cada solidão, cada palavra desenhada sem sentido, cada redesenhada sílaba que se junta e parte. As palavras são como cavalos selvagens à solta e desenfreados numa lezíria ampla e livre.



Afago-me. Felizmente há luar! Um luar branco, imaculado e solto. Aprenderei um dia a ler, antes de inventar uma leitura num mundo que os homens teimam em me mostrar errado.