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Cardilium

Cardilium

A rocha

Na praia azul de mar moreno,

sobrevive das marés,

a rocha onde deixei o meu corpo adolescente,

e a saudade perene,

dos beijos e dos segredos depositados.

Divergente

Mesmo onde nos encontramos divergimos,

soltos em prisões amontoadas de decretos por legislar,

em todas as tardes se junta a noite,

e o frio acabará por nos abraçar,

o mesmo sangue faz-nos iguais,

mesmo que em pensamento divergente.

Existe menos terra a caminho do mar

Existe menos terra a caminho do mar,

passo serras,

planícies,

florestas frondosas a pinho perfumadas,

detecto o ar agro a sal,

o sol a queimar-me a pele,

a maresia a embalar os sentidos.

 

Chego,

O mar aberto ali, onde existe menos terra.

Quase desconhecida

É quase desconhecida,

menos o cheiro,

o sorriso, 

o mar dentro,

as palavras - vem - beijo - boca - mãos -

e a ausência presente.

conhecida, sem saber o nome por que a chamam.

 

À Légua, entre o Vale Furado e o sonho!

Quando a praia que se desconhece fica entre o canavial que o vento sopra e a escuridão que murmura, o mar pode ser incandescente mesmo com a lua enganadora. Por lá deposito a vontade e a recordação, por lá teima em ficar a noite mesmo que, na ensolarada tarde onde tomo o café vespertino a minha mente atrevida teime em permanecer lá, no mar, na lua, nos planetas, nas estrelas.

À Légua, entre o Vale Furado e o sonho!

Enquanto isso, cheiro a camisa por lavar!

Temos de adiar o desassossego, disse-me ela numa voz que imaginei sorridente e ao mesmo tempo desavinda com o tempo.

Desassossego é a inquietação que o tempo não me retira. Adiar, é prolongar este sentir que eu sonho manter, nos passos dados nas noites que se tornaram desencontros esperados.

Adio semanas pela próxima valsa, retardo horas pelo próximo olhar, prolongo minutos pelo abraço seguinte.

Já este desassossego não tem tempo. Não posso adiar. Não posso antecipar. Não o consigo manter dentro do tempo, enquanto elaboro estratégias de negociação, margens, lucros, deve e haver, modelos de negócio, estudos de mercado e, nada adia nem confirma o que se pressupõe protelar.

Roubas-me anos à idade e fico um adolescente maduro com o prazo que a idade tem.

Sinto-me mais vivo desassossegado, mas tens que me ensinar a adiar.

Talvez procrastine, assenta-me melhor.

Enquanto isso, cheiro a camisa por lavar!

Chamo-lhes:- coragem -

A culpa não me pertence,

se me presentearam com mil pecados que nem sabia existirem,

adormeço sobre os sonhos que não me despertam nem embalam,

e acordo com a cheiro a flores no meu leito,

volto-me mais três minutos,

chamo-lhes:- coragem -

A minha cidade a ficar-me desconhecida

Há medida que vou deixando de conhecer as pessoas que habitam na minha cidade, a cidade vai deixando de ser minha, e é uma cidade como todas as outras. Se lhe retirar o rio, as memórias, os cheiros e até as pessoas com que eu não conversava que já não estão nos jardins que frequentavam, a cidade já não é a minha cidade, embora a rasgue o meu rio, os meus cheiros, os meus jardins e aquela saudade de memória e alma. 

É a minha cidade a ficar-me desconhecida.

Lembranças, fogo e saudade

Já tenho rugas na voz embargada,

dobras no sorriso,

e na face solto vincos.

 

Já tenho mãos abreviadas,

escolhas alinhavadas

lágrimas e sal.

 

Já tenho dores que me bastem,

alegrias que me abastem,

lembranças, fogo e saudade.