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Cardilium

Cardilium

A cidade não pára

 

Está mesmo mesmo a acabar. Os dias misturam-se com as noites, a vontade com a anti-vontade, a fome com a sede, e a sede com o sono. Tem sido duro manter-me acordado. Deito-me num amontoado de papéis que já não consigo discernir. Satisfação do dever cumprido. Sábado quatro de Julho está aí. Falta a outra metade porque a primeira esta feita. Aguardo os resultados que sinto estarem consumados. Fusão de sentimentos. Pais, filha, eu próprio. Questões, audácias, arrojos. Dormente e demente, letárgico e lúcido. Carregam-me palavras e pensamentos. O cheiro da madrugada vislumbra a aurora que o dia encerra. A alvorada estremece em mim. Debaixo da ponte, salpicos de chuva batem-me nos dedos entreabertos. Na fábrica de prata, uma pianista constrói sons feitos de acordes. Uma voz plácida e cristalina persegue os dedos esguios, na escala decorada a preto e branco. Teclas mágicas misturam-se. Nos meus joelhos a tua cabeça sossega, feito de nada num degrau de madeira. De tão pouco, faz-se tudo. O tempo urge em não parar ali. O tempo expira a cada passagem. O tempo cristaliza-se. A cidade não pára, eu nao páro, tu nao páras, nós não paramos.