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Cardilium

Cardilium

O portão abriu-se afinal de par em par

 

Há montes de luas que não sentia as tuas mãos em mim. O teu abraço corre na íngreme encosta que foge do mar e que se junta ao mar. Denso o nevoeiro rompe faixas de luz na curva que dá para ti. As pedras onde me sento são frias e amontoadas. Geme água na mistura do vento, do nevoeiro e do movimento do mar. Oiço o silêncio na acalmia do lugar. A areia move-se em cada passada. Ténue oiço uma música que me baila na cabeça. Imagino um piano preto brilhante, um contrabaixo quase encerado, um triangulista que parte a musica e a distribui, pelo virtuosismo de uma voz encantada por um dom, dado por Deus. O saxofone que me parece de oiro, percorre uma escala pela escalada da música. Embebedo-me assim do local pela música que me baila na cabeça, enquanto te abraço e me embalo. Vejo te sentada, como que enrolada, sossegada. O palco, a luz, o cheiro e a viagem tornam-nos unos. Revisitamo-nos com o olhar. Soltamos palavras e ideias. Juntamos ideais. Sonhamos com o fugir da gente e regressar a nós. O portão abriu-se afinal de par em par. O Abraço escondeu-se na última curva, e descemos.