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Cardilium

Cardilium

Desígnio

Debruço-me.

 

Vejo titubeantes passos e uma animada conversa sem ninguém que pudesse responder. Um homem envolto em solidão pergunta e responde a ele próprio, próprias questões animadas por um hálito retardado de anos de álcool. Não o sei triste ou infeliz. Sei-o animado na procura de quem lhe foge. Pessoas.

 

Saio rápido de casa e vou para o outro lado da rua para me cruzar com ele na esperança que ele me reparasse. Reparou-me e ignorou-me mesmo antes que se tenha excluído o segundo seguinte. Pensei. Ele está muito menos só do que eu, ou seja, está muito mais acompanhado. Fingi um caminhar lento de forma a ficar ao seu alcance o máximo de tempo possível. Mas ele tinha uma rota e uma companhia, senti-o a esvair-se pela noite adentro, rua afora, de uma forma segura a que eu chamo desígnio pessoal, ou intenção direccionada de vida.

 

Ainda pensei perguntar-lhe numa abordagem inadequada com uma daquelas patetices de ocasião como por exemplo:

 

“ Está uma bela noite, o frio não há meio de se demitir”.

 

Nada disse e tentei imitá-lo. Fui parafraseando ladainhas de loucura como:

 

“Então, não me vês, escuta o sol, verde é a esperança do pensamento no gelo que cobre a calçada num outro tempo melhor (numa alegórica forma politica de pensamento), o mar jamais se transformará no sonho que julguei um dia adiar, trocar ou negociar com a morte, na isenção sentida da felicidade”.

 

Nada me sai com sentido. Nada se me constrói com desígnio. As palavras soltam-se-me com as badaladas com que regresso ao meu mundo, que não sei mesmo ser o meu planeta subsistido. Na verdade, se me basto, é porque nunca experimentei a felicidade. Se me basto por companhia, é porque sempre estive sozinho. Se me basto sexualmente, é porque nunca senti satisfação. Se me basto, é porque me incorporo num egoísmo que me turva a partilha. Pelo menos que alcançasse sair por aí e falar para quem me quisesse ouvir, ou me sentasse no chão a oferecer palavras, às pessoas tal como as vejo.

 

Se me basto, é porque me falta desígnio.