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Cardilium

Cardilium

Tudo visto do lado de dentro de mim

Se a dor se espreguiça antes da dor e a moinha se apresenta antes de doer,

Representa-se assim o bulício deste corpo,

Como o observatório da tabacaria de Pessoa ou de Álvaro de Campos?

Moída e dilacerada a vida dos outros vista da vida de um quarto de ninguém,

Vida excluída de alguém e terrena, incluída no vislumbre da própria vida,

Inexistente existo.

 

“ … Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo …”

 

Desconstrói-se em goles bebidos de uma alma inacessível e rogada,

Presente da solidão este mundo de debutantes representativos,

De mulheres com saias apertadas fingindo-se cegas dos olhares que não lhe interessam,

Mulheres altas de sapatos desformados que lhes formam as formas das pernas.

As mulheres não sendo as nossas mães ou as nossas filhas,

São apenas mulheres.

 

Se eu casasse com a minha loucura?

E me vestisse de amianto e explodisse?

Se eu rogasse a minha vida e recuperasse o meu demónio?

Se eu largasse brados de berros em cascatas anis e assustadas e me apelidassem de tornado?

 

Tudo visto do lado de dentro de mim é soturno e difuso, improfícuo e inútil,

Estas vidas que vejo cegas, acalentadas por musicas modernas e deprimentes, afastam-me do mundo,

Queria balançar-me no nada que sou e abraçar-me nos sonhos em que existo,

Esta esquizofrénica forma diminuta não é a dominante pedra fria que me escuta,

Da vida só se extrai o que se acrescenta,

Sei-me desentendido pelos homens.

 

Assim sendo:

“… Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário …”.