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Cardilium

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Crise

Um povo imbecilizado é um povo subjugado. Estamos para os políticos como futebol está para os “treinadores de bancada”. A crise como se apraz dimensionar não é nada de novo. A crise sempre existiu, em todas as vertentes sociais deste país. A crise na agricultura, na educação, na saúde, na justiça, nos valores, na identidade, na sexualidade, nos relacionamentos, nas gerações. A crise por si só cresceu connosco. Não me espanta em nada, esta “crise dos escondidos”. É uma crise falaciosa e sem sentido.

 

A crise é alguma coisa que pressupõe uma profiláctica mudança. Se nada se muda aquando a identificação da crise, tenta-se mudar depois dela instalada?

 

A crise foi, quando se achou normal existir um país de analfabetos. Quando se achou inevitável haver terras por cultivar, e se achou coerente distribuir a riqueza de forma desigual entre o patronato e os assalariados.

 

O que há de novo nesta crise? Nada!

 

E o que há de velho nesta crise? Tudo!

 

Os intervenientes são os mesmos, os de sempre, os de centro moderado e os de esquerda convertida. Depois, existem os poetas, os de sempre, e desglorificados.

 

Porque estão as mensagens das cantigas de Abril tão actuais?

 

Quando o poeta dizia: “vi-te a trabalhar o dia inteiro, construir as cidades para os outros, muita força por pouco dinheiro” era agitador social.

Quando os sindicatos eram dos trabalhadores e passaram a ser dos patrões, e o poeta cantou em tom de aviso: “aprende a nadar companheiro que a maré se vai levantar” era anticristo e voz da reacção.

 

A crise não é o hoje nem será o amanhã.

 

A crise foi o ontem distraído de quem se deixou distrair, pelas migalhas e imbecilidade colectiva.

 

A crise foi a abstenção.

 

A crise foi, não ensinarmos aos nossos filhos, o verdadeiro sentido de Abril. Foi não promovermos neles a responsabilidade do seu próprio futuro.

 

A crise foi, não ensinarmos as pessoas a pensar.

 

A crise é não termos “tomates” para recuar, avançando com o sonho de sermos livres.

 

A crise não existe, é uma manobra de distracção social, engalanada de subterfúgios diários e pidescos.

 

Um homem novo faz-se em sessenta e tal anos… o futuro traz-nos o ensinamento do passado. Sem ensinamento a crise instalou-se e não mudará sem o presságio que amanhã será melhor. Não será melhor coisa nenhuma, o povo está surdo e sabe tudo. Quando aprendermos, quando sentirmos que, genuinamente merecemos a nossa dignidade, seremos desenraizados da crise, e a felicidade brotará, depois de semeada.

 

Não se colhe antes de se plantar. O homem novo será, a semente de um homem livre.