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Cardilium

Cardilium

Fingimento

Finjo que não reparo nos teus olhos brilhantes que me apetece seduzir, e, desta marina ancorada soltar as amarras e bolinar oceano adentro uma noite inteira tornada momento. Finjo que não reparo no teu elegante caminhar, e na forma como os teus lábios exalam as palavras perseverança, encantamento e esperança. Finjo que não reparo na forma como deitas os olhos ao mar. Finjo que não reparo nas tuas mãos desenfreadas, bailando no convite que as minhas ambicionam sonhar, sem anúncio prévio e concedido. Finjo que não reparo na existência de fé na tua face. Finjo que não reparo na minha própria vontade. Finjo que não reparo na forma como te abraço e no conteúdo do abraço teu. Finjo que o teu cheiro não me encanta e seduz. Finjo tanto, que de tanto fingir, forjado me torno real, julgando-me ainda o inventor de alquimia. Finjo que o tempo não voou e aquando do seu anúncio de partida, finjo aceitar que o tempo existe medido, e não na forma inexistente e do tamanho que o tempo tem. O tempo não existiu avaliado e parco, o tempo esta noite viveu vindo do mar, bonançoso, empurrado pelo vento da esperança, e pela madrugada alienada da vontade de o querer castrar, matando-lhe a existência e tornando aquele pedaço de vida, eternidade.

Finjo que os teus lábios não são lábios, que as tuas mãos não são mãos, e que o teu olhar não é luz. Finjo que o sonho não é meu, que o meu querer não é o teu. Finjo deste fingimento anunciando paixão.