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Cardilium

Cardilium

Do nada, tudo, num todo

Do nada, tudo, num todo. Já fui infeliz solitário e descontente acompanhado. Agradeço a todos os homens e mulheres que se despediram ao partir. Conservo os que fizeram parte da minha vida, na demora de um abraço. Zelo pelas almas que zelaram pela minha. Adubo a saudade que quero cultivar e sentir. A saudade retorna-me à felicidade e aos momentos que aceito existirem como únicos na minha vida. Quero aclamar a nostalgia como a alegria do retrocesso. Se, se foi feliz um dia, ser-se-á sempre contente nesse tempo. Ser-se-á sempre feliz noutros momentos igualmente que, o que o dia nos tem reservado em vida, não é desígnio fecundado pela vontade. É, tão e mais somente, uma dádiva eloquente e incontrolável do que não escolhemos, mas que apenas podemos aceitar. Os caminhos não se escolhem enquanto se erguem. A vida tem tanto de dor como de celebração. Os outros são ninguém, na nossa riqueza afectiva. Nada é diferente de ninguém. Ninguém é, a responsabilidade de nós sobre nós. Nada, é pobreza e a infelicidade da insignificância. Quando nos temos, temos alguém. Quando não temos nada, temos em sobra, ninguém.

 

O vento arrancou-me melancolicamente o coração, isentou-me a esperança, e recuperou-me a vida. Desapoiado alcancei-me. Numa noite de mato húmido, fria e invernosa, dei as minhas veias e fechei os olhos. Invadiu-me um vulcão que me cegou, para, segundos depois, me conquistar uma paz devoradora, que não mais quis que se fosse. Foram anos de ninguém, meses de nada, desmoronamentos ruinosos de morbidade desesperançada e, aí sim, me excluí num laivo de discernimento. Carregado de dores desentendi-me com a verdade que antes exaltei, e parti.  

 

Era tempo de partir para mim. Foi tempo de me receber. Desconhecido, aflito, inquieto, prenho de incertezas e sem me reconhecer, fingi. Fingi vida, sorrisos e até orações. Continuo numa deriva que questiono. Cada vez mais me excluo e incluo no mesmo minuto. Os anos ensinaram-me a não ter que ser. Ensinam-me a ser apenas pertença dos pedaços de mim, reedificado. Uma parte de mim é forte e decidida. Outra, fraca e não imune. Desintegro-me de pensamentos, de diferenças, mais do que semelhanças. Chego a ser único em mil. Atordoo o cinzentismo no olhar. Chego, e logo me apetece partir, e, quando parto, não tenho pressa de chegar. Sou metade loucura desta sanidade insensata e isenta que estimo.

 

Do nada sou tudo … num todo.