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Cardilium

Cardilium

Lisboa

A primavera está em construção. Findaram as noites irradiadas de luz, acrescentadas à vontade de o dia não se ausentar. A passarada em debandada exclui-se por uma vida melhor, foram atrás dos dias das horas compridas. Devia assim acontecer aos mineiros, metalúrgicos, ilusionistas, carpinteiros e às mães. Às mães que precisam de pôr comida nas refeições dos filhos e pais desempregados. Devia ser simples como a debandada dos pássaros. Imigrar. Emigrar neste mar nosso e salgado, feito de lágrimas de Portugal.

 

Vi Lisboa de lágrimas nos olhos, adormecida na sua luz, sedenta de vida como o rio que lhe passa sem a rasgar. Vi o azul subir a encosta e o bosque descer até ao mar. Vi as ruas cheias de cidades e o mundo numa avenida só. Vi praças torneadas como as pernas de quem lhe passa. Vi a poesia solta aos malmequeres, nos bairros e no castelo altaneiro, erguido e calmo. Vi o sol esconder-se em monsanto e a lua elevar-se de prata, sob o bugio. Vi os jerónimos de mão dada com torre em belém, a beijarem-se. O marquês e o saldanha a rebolarem-se no parque. Vi a graça a seduzir a sé, e o tejo ajoelhado ao cristo rei. Vi as ruas enfeitadas de Santo António e a avenida engalanada de bailado. Vi o jazz sair à rua na praça da alegria, e o teatro esbracejado no dona maria. Vi o são jorge a rir-se com o tivoli e o coliseu alienado nas portas de santo antão. Vi os domingos rezados na estrela e o futebol dar vivas em alvalade. Vi uma cidade feita de um país e homens reconstruídos de um abril solidário e ausente. Vi o Almada e o Pessoa, o Eça e o Bocage, o Pacheco, o Saramago e o Camões maestro desta cidade, sitio encantado. Vi partirem os descobrimentos. E a liberdade a passear-se por aqui, nesta Lisboa irrepetível.