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Cardilium

Cardilium

É no cair das folhas húmidas de Outono ...

O passado, essa oferta envenenada do presente. O presente, esse adiar constante do passado. As amarras cravadas erguem as fundações que sustentam o meu aqui e agora. As mãos já negras de tanto pisadas, ensanguentam-me a alma de medo, essa imagem invisível presente e envelhecida.

 

Um dia, num bosque perdido de mim e de caminho, vislumbrei entre as folhas cerradas das arvores um raio de luz. De já nada ter a perder por já tudo ter perdido, ergui-me e segui-o dentro do escuro, às cegas, aquele breu foi ficando menos negro, clareou, e embranqueceu cada vez mais. As dores passaram-me, os suores ficaram indolores, e a cegueira menos autista. Entre as folhas rarefeitas, não procrastinado, dei-me com o azul dos olhos do meu pai, chorosos de ausência, risonhos de presença. Deu-me o seu braço, que acabava na sua mão apertada na minha, e caminhou comigo até aqui.

 

Num outro dia semelhante, abracei a minha filha, vida da minha vida, vida que gerei numa madrugada à beira de uma fonte. Nascente de vida esta graça. A luz e a existência uniram-se naquele momento, agregando neste dia o prodígio de permanecer presença. Sem palavras dei-lhe o meu peito, e o conforto do seu corpo no meu colo, engrandeceu de vida o meu coração, transformado agora em entidade soberana e superior.

 

É dos pequenos raios de luz que recebo os sinais. É na mudança da estação que me transformo. É no cair das folhas húmidas de Outono, que os meus passos se tornam macios e silenciosos. É no frio que corta a cútis que a metamorfose se instala em mim. É nas noites longas e invernosas que me embebedo de mim, e as amarras não me permitem atordoar-me de ti.

 

Vivo angustiado de desconhecimento. Quem me conhece? Quem sabe que um dia morto sobrevivi. Quem me entende ateu? Quem me aceita alienado, exasperado, sereno, brando, refugiado nos meus papéis, nos meus acordes, na minha diferença, nos meus desgostos, nos meus prantos, nas minhas viagens de insignificância, nos meus valores concretizados?

 

Quase nada me interessa, do que interessa aos demais. Quase nada do que me faz rir, faz rir alguém. Quase tudo o que me faz chorar é diminuto na consciência colectiva.

 

Sou coercivo e demagogo,

Foz e poente estridente,

Bolina mal vinda num fim de tarde de verão.

 

Sou ventania em agudo,

Zumbido constante,

Vida dos que não me querem.

 

Sou sol doirado de inverno,

Pacatez sossegada,

Embriaguez fascinada.

 

Sou tudo isto e não sou nada,

Abundância e madrugada,

Passado e promessa envenenada.

 

Sou floresta e bosque constante,

Solidão, presença e encantamento,

Refúgio de mim demente.

 

Fiquei fascinado com aquele homem que me falou desta maneira e se descreveu assim. Perguntei-lhe: - és deus?

Sorriu baixinho e disse: - deus e diabos somos todos nós e não o é ninguém. Somos apenas desejo e vontade, e quando elas são muitos fortes, todos somos o que desconhecemos ser. Senão repara, continuou. Os políticos, os padres, os filósofos, os poetas, os médicos, os professores, os pagãos, os colonizadores, e tudo o que se possa ser, estão ou estarão algum dia tão perto da morte que a aceitem? Estarão um dia tão perto da tristeza que a tolerem? Estarão algum dia tão perto do desencantamento humano que cedam? Estarão tão perto um dia da pobreza que não promovam a guerra? Estarão algum dia tão perto da fome que não ambicionem a fartura? Estarão alguma vez tão perto do desamor que não mintam por sexo? Estarão algum dia tão perto do suicídio que o entendam como liberdade? …

 

Aquele homem teve todas as respostas com as perguntas que me fez. Entre a neblina suave que acordou com o fim do dia, apertou o seu peito de encontro ao meu, e disse num tom que eu nunca ouvira antes. Até sempre. Numa despedida permanente e adiada … partiu mas ficou.

 

É assim que o consigo descrever …