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Cardilium

Cardilium

O libertino

Ele há coisas! E assim me deslumbro do poder espiritual que diariamente me é devolvido e enviado. Esta coisa do espiritual, em mim, vale o que vale. Vale coisa nenhuma, contudo, quando me ponho a somar as peças, vale em mim uma vida, a minha vida. Os sinais, no fundo são a confirmação da minha intuição. Fico feliz pela forma como aprendi a sentir. A minha intuição é a minha espiritualidade. Prevejo hipocrisia em discursos fingidos e perfeitos, desconfio sempre da perfeição, gera confusão aos meus defeitos. Esta coisa de mostrar para esconder, adivinho-as nas contradições, atento e pensante, detecto-as. Prevejo marés de afectos fora de época. Antecipo inícios e finais, traições e desencantos, esquizofrenias teatrais. De onde eu venho, ainda a tempestade por lá existe, não se apagou. Ainda por lá baloiça a maldade e a humilhação, e os mortos só saem nus. Tudo se pode trocar na gurita verde, do bairro esculpido a corpos magros e olhares desencantados e negros. Por lá, não existe paixão. De onde eu vim deu-me a vida a escola, a faculdade o ensinamento e os amigos a presença. Bendita intuição, minha última unção do dia em que me devolvi a esta sanidade, e o deserto não me fez recuar. Hoje brilho entre as lagrimas e sorrisos, como o libertino que se passeou por Braga, a idolátrica, o seu esplendor, que afirmava acertadamente amanhã morrerás. Nada mais verdade, num amanhã qualquer morrerás, morreremos apodrecidos de uma vida não vivida, ou não.

 

“… Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e ogo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões, outra terra a que perdi o nome e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha… “                                                                                                                                                                                                                                          (1970, Pacheco, Luiz)