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Cardilium

Cardilium

terra

São terras que conhecem o suor de quem as ama,

São terras que conhecem o sangue do torturado,

São terras que conhecem  lágrimas de mãe,

São terras que gemem dor da dor de quem as trabalha,

São terras de igualdade escrituradas em feudos desiguais,

São terras que abraçam o cansaço de quem nasce do descuido.

 

Vergo-me aos operários e poetas que fizeram da terra liberdade em alguns dias.

 

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Extracto de palavras por ver o sol um dia (AGO20)

“… o velório estava transformado em tudo o que o defunto não desejava. Nem da recordação de ladroagem o elevaram. As mulheres idosas pungem a má sorte que deus lhe escolheu. Os homens de meia idade elevam o seu exemplar comportamento em contraponto com o mau comportamento do defunto. A malta nova (eles e elas) recordam as noites quentes de verão, onde o defunto tocava blues com a sua harmónica presença orgânica dele mesmo.

Uns e outros fizeram-lhe companhia. Ele, só queria é que aquilo acabasse, como os noivos no casamento.

O velório transformado num profundo acto desnecessário. O padre (um dos convidados) perdoou-lhe em voz alta os pecados. Todos acederam com ar grave e sério à penitencia. Estava encerrado o inglório acto de despedida.

Depois foi o funeral e não se falou mais disso.

Nada foi como o defunto tinha planeado. Açambarcaram-se do velório para passarem um bocado de vida …”

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Esgota-me e desgosta-me.

Quando a cabeça não se explana como uma planície a ver de fim e se transforma num túnel, as palavras deixam de alimentar o sonho. As conversas por aí ilustram-me a evidência. Esgota-me e desgosta-me.

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a praia a ser-me devolvida ás 20.17h

as falésias de deserto junto á praia,

as conversas das gaivotas,

o sossego das ondas despovoadas pelo fim de tarde e a ausência dos usurpadores de mar,

a competência para que o mar foi inventado,

sem ruído que não o canto de cisne e dor.

o fresco que chega embrulhado de lua,

a praia a ser-me devolvida pela solidão,

o mar a autenticar-me pela companhia.

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Todo o teu silêncio já me basta

Por favor a nós,

não soletres aquele ui com que encantas a madrugada,

despe devagar de teu corpo a roupa que te alberga,

sabes que me faço distraído dos teus gestos,

que me comovo com a tua boca,

que me ausento quando fazes de ti toda a rua que me acolhe,

que me enterneço quando te olho antes da porta se abrir,

e me dizeres tudo com o olhar.

 

Vê se não me dizes nenhuma palavra,

todo o teu silêncio já me basta.

 

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Vicious

Os vícios a serem maus não seriam vícios. Não teriam sido vícios nos casos que o deixaram de ser. Teriam sido labirintos de desprazer e tristeza sem saída, e não o foram, foram aconchegantes intrusos autorizados.

O vício é um autorizado e acolhedor guardião da ânsia e do prazer, não sei por, que lhe chamam, vício.

Devia de ser rebatizado por reflexo, e assim seria o meu traço e eco.

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a sudoeste na ilha

Há locais que se deviam poder transportar, que se deviam poder trazer, que não se deviam poder deixar.

Deixaria de bom grado a mala de roupa colorida que me enche a bagageira do automóvel por troca com a felicidade dos meus olhos, por troca com o vento, com as flores feitas mulher nas dunas, por a solidão da noite que nada tem de solidão em mim.

Trocaria as orações todas que aprendi a um deus que desconheço, por toda a lua que me guarda na planície desaguada no mar.

Largaria todos os meus amores menos o meu, e a cada vinte e quatro horas daria mais tempo ao tempo. Pudesse eu o tempo acrescentar.

Há sítios que não são locais, são como mulheres a aproximarem-se de doar a vida a seus filhos.

Há locais de sítios que são em mim: - eu próprio -

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