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Cardilium

Cardilium

Amigos III

Já tive um bairro cheio de amigos
Uma casa cheia de amigos
Uma sala cheia de amigos


Amigos feitos de bairro, casa e sala
E os amigos que sobraram
São muitos menos do que uma mão tem de dedos

Mas são...

São brisa, naufrágio acompanhado 

Resgate e conexão 

Mais fresco

imóvel
a sala
cadeiras empoeiradas
a mesa a fazer canto com o canto da sala
o canto do Zeca como companhia
Alentejo
saudade
noites perturbadas de brisa
dias de anseio pela noite
o campo a perder de vista
sempre igual mais 
nunca igualavel
fresco amor refrescado nos corpos nus
no ribeiro que se avassala entre as árvores
imóvel
sonho ver a tua sombra de luz regressar
a tua silhueta entrelaçada nas minhas mãos

Só por hoje

" ... Depois, a ressaca não me deixa dormir, o medo não me deixa viver, a saudade não me deixa recordar, o bairro não me deixa de seduzir e a angústia não me deixa ser.

 

Não sei se algum dia o dia, será construído por paz em jeito de fortuna que nenhuma riqueza me dará.

 

Não sei, se o que me sobrou da morte de onde nasci, alguma vez será a normalidade de que ouço falar e o sonho a construir-se somente por sonhos. 

 

Não sei o suficiente mesmo que abstinente, para descansar de mim mesmo, cinco minutos que fossem só por hoje .. "

 

Morte a declarar

Em cada dia existe a morte declarada e uma forma de a declarar,

que se preenche em papel timbrado no dia em que declarada a vida expirar,

e é só nos funerais que perdidos de remorsos achamos,

não valer a pena a vida enquanto esforço,

e é só nos tórridos torrões lançados ao corpo,

que a vida afinal se glorifica,

e toda a gente valeu a pena afinal,

o burlão,

o mendigo,

o doutor,

o drogado,

ninguém morre de pecado,

essa mentira anunciada num jesus crucificado,

inventado pelos homens que te querem ver castrado. 

 

Em cada dia existe a morte declarada e uma forma de a declarar,

que se preenche em papel timbrado no dia em que declarada a vida expirar.

 

Poemas

Um poema sangra e ri sozinho,

cresce por ele próprio nas noites de prata e lua,

cresce com as lágrimas que prendo,

com as suaves lambidelas do cão vazio que me adoptou,

com a sombra onde me sento de pernas cruzadas em frente ao rio azul,

cresce e envelhece sozinho,

o poema que me escolheu para viver. 

 

Mar do Sul

foi o mar em pranto a sul,

a notícia,

o hábito e a ousadia da pele queimada,

a surdez e a cegueira,

o anti-mundo e a quimera,

as vozes descrentes e a crença,

todas as madrugadas e o corpo.

 

foi o verbo ser e as mãos que demos à vida,

que trás à saudade: - recordação -

 

 

 

excerto de palavras por ver o sol um dia (178)

" ... Deixo-te um bilhete com uma palavra que desejo que construas. Aceito a tua loucura e todas as noites em que não estavas quando cheguei. Bem sei que chegava tarde e perfumado de um aroma que desconhecias. Bem sei que que só voltava porque te sabia ali, ausente na espera que me fazia sentir que não existias na tua espera.

 

Deixo-te um bilhete com todas as palavras que conheço numa só que te escrevo. Aceito o teu desamor. Aceito a tua grandeza. Aceito a palavra que te deixo escrita.  Partir.

 

Partir é o nome da tua boca, a rua que vou fundar, o país em que vou naufragar. Partir é a maldita sina que o destino não tem, onde eu sempre me achei pertencer. Partir sempre foi o sonho da eternidade. Partir nunca foi sair sem ficar. Partir foi sempre partir sem sequer ter que ir.

 

Um dia, acho, acredito, que voltarás para encontrares o bilhete que te deixo escrito, e depois sim para partirás. Até lá fico..."

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