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Cardilium

Cardilium

O mar à minha esquerda

O mar fica à minha esquerda, oiço-lhe o respirar, tenho a certeza pelo desenho do sol no céu. Há demasiados carros, casas, ruas e gente na cidade. Que saudade eu tenho de ver o horizonte.

 

Já madrugada voltei a ver com distância. O bulício labiríntico adormecera e, eu acordado a necessitar de respirar a noite e o horizonte para sobreviver.

 

Eu, a lua e o mar à minha esquerda, agora a respirar pesadamente. 

 

Nome sepultado

Deixo o meu nome sepultado no poema que te dedico que diz sermos dois,

depois já não somos dois,

às vezes não somos nenhum,

nem nada,

outras somos o mundo,

ou somos como se não houvesse mais mundo que não nós. 

- por mim em construção -

fui deixar-me à floresta,

perfumar a minha alma,

regenerar as angústias,

salgar as feridas no mar leal que me escuta e me oferece as lembranças ordenadas,

no desencontro das ondas apressadas em se espraiarem.

 

sinto breve esta melancolia e ágil esta pseudo cobardia de não me querer suportar,

será ternura este artefato construído em mim - por mim em construção -

Sobro-me

Sobra-me ruínas à construção,

Amor ao amor,

Trilho à descoberta,

Gente a pessoas,

Mulheres à raça humana,

Palavras à história,

Corpo ao sonho.

 

Sobro-me à existência.

 

Sítio nenhum

Tantas tentativas disruptivas de colocar o sol tatuado num pedaço de mim que seja.

Ao invés, ofereceu-se-me o mar numa madrugada gentil saboreada de insônia e pranto. 

O muro, caiado de branco cego, continua a descansar-me as costas, entre os barcos que partem e chegam de viagem. Eu, por ali, aguardo que tenha um sítio onde pertencer. 

 

As lágrimas lambem-me como a temperatura amena com que maio se faz

De regresso de uma viagem de vómitos, saliva e suor. Agradeço-me a resistência. Abraço a resiliência. Tantas drogas somadas no meu corpo, processadas na mente viajada em desconhecidos caminhos, sob o medo e a euforia dos sótãos de pensões de podridão, em bairros demolidos de pessoas moribundas. Oiço descrever glamorizada as drogas que tomam jovens gestores, e a abençoada criatividade induzida no sucesso, beleza e descoberta.

Não entendo.  O que conheço é:

- A vida como impossibilidade de ser vida, a impossibilidade de a morte se transformar da morte –  

depois, há os náufragos e os sobreviventes, e o regresso da urgência de corpos desnutridos e magros, em almas incandescentes apagadas temporariamente.

Sentado de viola nos joelhos, tento compor uns versos que celebrem que fintou a vida, quem enganou a morte, quem se salvou dos estilhaços na pele com que aqui chegou.

As lágrimas lambem-me como a temperatura amena com que maio se faz.

O refugio dos meus sentidos está intacto

O refugio dos meus sentidos está intacto.

Ficou como que impermeabilizado à estupidez e, isso é meio caminho andado, para de uma vez por todas, emergir do afogamento tentado da indução da imbecilidade.

Abomino as boas atitudes escondidas em sorrisos falsos desenhadas em teias de palavras e conceitos sem fundamentada sustentação.

Não acredito no desígnio de uma vida boa (ou boa vida mais isso) na leitura de pedras, cartas, “ensonamento” terapêutico, etc etc etc.

Acredito em: - introspeção e  amor - pouco mais do que isso, com as correntes que cada qual quiser usar, mas à borla, que o amor não se cobra, que o amor não se paga.

Devolvido por momentos à raça humana, em amor pela verdade.

Baía de Sines

eu não sei se nesta espera o meu corpo resistirá,

sinto-o a ceder quando me sento defronte para a baía e:

 

- oiço os teus passos que já não podem ser os teus passos,

o teu cheiro que já não pode ser o teu cheiro,

o teu envergonhado sorriso que já não pode ser o teu envergonhado sorriso,

o teu silêncio glorificado transformado em mim no ruído do meu corpo,

na espera que aguardo,

sabendo que não virás mais, mas que me esperas -

 

agora,

restar-me-á a recordação, a saudade e as tardes defronte à baía a olhá-la,

cuidando dos laços que enlaçámos.