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Cardilium

Cardilium

Terramoto

Terra abalada de terramoto imóvel e invisível,

ninguém viu,

ninguém escutou,

ninguém sentiu,

porque os meus olhos se fecham e mentem mais do que o engano,

e enfeitam-se de flores de todo o ano,

riem mesmo chorando,

e ao cair do dia,

cai-me a vida toda por inteiro no travesseiro.

 

Terramoto imóvel e invisível que me guarda desta terra abalada.

Chão que cede

" ... Empanturrado, esperava que a coragem me forçasse a sair rapidamente dali, a repugnante e réptilinea observação que me tinham acabado de fazer, não cabia no meu corpo todo.

Empanturrado, era o melhor termo que me ocorria para descrever aquela mísera fartura agonizante e desconhecida.

Apenas recordava o peso das palavras e a má disposição repentina que me tinha feito falecer por segundos. Que sossego falecer um bocadinho.

Não associei de imediato o quanto o meu corpo me tinha denunciado, só mais tarde e num rasgo lúcido e angustiado, entendi o enfartamento de tantas palavras envenenadas. 

Ensanguentado, limpei as mazelas que mais tarde sabia sararem. Forcei levantar-me, respirar fundo e acreditar na negra mulher que oscilava ao vento.

Ao longe, uma melodia chegava-me, voltei a encantar-se com um poema que me saiu pelos poros e, decorei-o.

 

navio solto neste mar adocicado de sonho,

sem sal que me salgue o sangue,

sem vento,

sem nada que retire ou acrescente,

pobres os meus olhos que me chegam cegos,

rico o meu chão que me cede e segue ..."

 

Distância

distânca do sossego onde o que deixei a arder contém o fogo da saudsde. 

distância da cidade das ruas que são dialecto que não falo.

distância de existir na escolha da sobrevivência do medo.

distância contrária à proximidade que não se distancia. 

 

 

Desaglutinado

Há sempre alguma coisa para deixar.

- o açúcar, as gorduras, os hidratos, os cigarros, o álcool, o carbono, as benzodiazepinas, os opiácios, os canabinoides, a benzoilmetilecgoninaos ácidos, os comportamentos, os pensamentos, os pecados etc, etc, etc -

Passo pela vida desaglutinado.

Passo pela vida a deixar a vida. 

Loucura e luz

a noite adormeceu pela minha solidão adentro, e, a minha resistência sossegou-se,
já tarde,
abro as frestas da janela e deixo entrar a breve luz da música que me ajusta - a ser -
que me devolve - o ser -
 
há tanto tempo que a inveja não se solta (penso),
porquê esta invasão sem revolução,
sem flores e policia de estado emocional,
sem nada que me retorça as vísceras,
ou que faça esfaquear-me de angustia?
 
gosto de quem não proclama a loucura e apenas se dá com ela (volto a pensar).
adormeço debruçado na saudade.

 

 

 

 

 

 

 

Quórum

Habitualmente a chuva não me queima e o sol não me molha, mesmo rebolando velozmente o mundo ao contrário. Levei anos a saber dos meus amigos e eles mais ainda a saber de mim. Hoje é apenas um dia. Um desabalado abalo sem quórum ou consistência de que existe alguma certeza no princípio da incerteza.

 

Ganho vida no que observo, ficciono, experimento ou intuo. Não ganho certeza, apenas abro outra perspectiva acerca da diferença e distância da semelhança. Tal como as portas de uma igreja fechada aos crentes está sempre aberta, aos ateus estará sempre fechada mesmo que aberta. 

 

Quanto mais céu, menos terra há para voar.

 

 

Cristal

Devoro o poema de cristal com o cuidado com que foi concebido,

não sou eu nele estabelecido,

não deixo de ser nele circunspecto,

não sou o entendimento que se espera,

muito menos conhecimento, 

sou somente o meu amigo inexistente,

o cristal devorado no poema resistente.

 

 

Desvio padrão

O desvio padrão está previsto numa regra estatística da matemática. 

 

Na vida, o padrão e o desvio não encaixa em quem tem no padrão o desvio. 

 

Sou desvio, sou padrão, no meu intervalo de confiança em clara  probabilidade de ser. 

 

Logicamente.

desamar

desamar devagar dói,

porém - certifica a verdade do amor -

desamar sem que o sono me derrube,

desamar sem que a música me embale,

desamar sem que sinta nada que não seja agudo dilacerante,

desamar mecanicamente como um engenho,

desamar por turnos,

das oito às quatro,

das quatro à meia-noite,

da meia noite às seis,

desamar devagar - certifica o amor -