Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cardilium

Cardilium

Excerto de os meus sonhos são capaz

 

Excerto de os meus sonhos são capaz

 

“ … Sim.

 

Nesta mesa onde há anos me sento e reflicto,

saboreio cada dia que recomeça sem angústia,

livre nos minutos,

preso nas horas.

 

Cada amigo que não o foi, me lembra.

Cada amigo que partiu, saúdo.

Os que estão - estão de quando em vez-.

 

Esta mesa sabe mais dos meus dias que minha mãe.

O tampo desta mesa enxuga-me todas as lágrimas que lhe declamo.

No canto desta sala onde arrumo esta mesa,

a fogueira e o cão são a humanidade,

a felicidade desta casa.

 

Eu,

saboreio um livro adocicado com uma canção velha de abril,

semeada em novas coutadas …”

Sol e vento

O teu corpo está em todas as minhas palavras, assim como o teu rosto de prazer está em todas as minhas fantasias. 

Todas as noites em que o teu cheiro não adormece no meu peito é um dia adiado, há espera do dia seguinte.

As tuas mãos são a esperança que os raios de sol anunciam no meu peito, como se eu desejasse que me arrancasses o coração e o adormecesses contigo, nas noites em que não estás.  

 

 

Jorge Palma

Só. Depois de 25 anos de bairro do amor a sentir-me frágil e um lobo malvado, num Portugal que continua à espera com um pé no fundo do mar.

Mãos mágicas debruçadas no piano, prolongamento das palavras harmonizadas que sangram e esperançam.

Foi ontem numa noite de ruídoso silêncio e emoção.

Obrigado Jorge. Palmas.

A minha cama

A minha cama tem lençóis de corpo e alma,

Deito-me dorido e acordo o sorriso que me adormece,

De manhã a preguiça acorda-me e anuncia o sol,

A minha cama não tem orgasmos e gemidos por dá cá aquela palha,

Tem noites de quimera tocada em sinais badalados da torre de uma igreja que nao frequento,

O meu quarto tem a minha cama,

um quadro, livros,

bocados de alma desarrumada pelo chão e pó para limpar,

Tem o universo do lado de dentro da janela,

E o meu cheiro junto a ela.

 

 

 

 

Rio Ill

"... quero uma familia como o rio grande que vejo passar, enquanto dedilho uns acordes de uma música que evoca são macaio. 

Um rio grande cheio de outros rios que se lhe juntam, mais os ribeiros que se juntam as esses rios, mais a chuva e as gotas de orvalho que rebolam do vermelho dos cravos outrora liberdade. 

Quero uma família grande como a chuva, unida e solidária como o sonho de abril adiado. A minha família são três pessoas e menos amigos ainda do que três. 

A vida é a nossa história e, essa, tenho-a cheia de amigos e família, quando eu não tinha família nem amigos. Depois, deixei por evolução de ser o que era e passei a ser quem sou, como um rio que recebe os outros rios, ribeiros, chuva e a gota de orvalho do encarnado cravo, por aí  juntei-me ao mar como o rio, que mesmo imenso, é desafinado com a música que dedilho. 

O mar sabe bem o que eu andei para aqui chegar. Só, com são macaio e uma pequena família..."

 

instante

"... sim, pode ser, se por cada instante em que és fores a eternidade, eu voltarei a ser infância na soma da minha idade ..."

Não posso

"... Posso enviar-te por um pássaro do céu a cor de que mais gosto para te enfeitares,

posso enviar-te pelo vento a primeira música que ouvimos,

posso segredar-te pelo mar o poema que te dediquei na nossa madrugada primeira,

posso enviar-te o meu cheiro pelo luar,

posso enviar-te a maresia da margem do lago onde penteaste os teus cabelos no dia em que te amei o corpo, depois de me abencçoares a alma. 

 

Posso tanta coisa que não posso,

tanta coisa que não pude,

tanta idade que deixei no tempo que foi tempo ... "

O verão e o inverno da minha existência

As janelas e a memória,

As recordações e ausências,

As mãos e o trabalho,

Os beijos e o amor,

Os abraços e a amizade, 

Os poemas e o mar,

Os velhos homens e a sabedoria,

O encanto e a paixão,

O céu e as flores,

Os rios e as árvores,

Os filhos e os pais,

A verdade e o sentir...

 

São a vida que me magoa e faz feliz,

São o inverno e verão da minha existência.

 

 

 

Os meus sonhos são capaz

A incapacidade de não depender o meu bem estar de mim somente causa-me medo.

 

A incapacidade da não apreciação da minha companhia como se houvesse outra mais necessária ao meu bem estar causa-me solidão. 

 

Aprecio a espaços a minha companhia e bem-estar e, quando sou invadido pela necessidade de dependência de alguém, vou para a serra que me viu nascer, sento-me na minha pedra favorita e deixo a musica do ribeiro que passa embalar os meus sonhos. Esses são capaz. 

 

Os meus sonhos são capaz 

 

 

 

 

Não sou livre quando em mim o tempo se desfaz de tempo

Sou livre dentro de mim quando o tempo não se faz de tempo,

quando ignoro o que foi só corpo e me absolvo de ter sido só corpo também,

sou livre quando as palavras são apenas palavras gritadas de escondida cobardia,

sou livre quando:

espero,

estou,

e sou,

sou livre quando as ruas me assentam o caminho,

e as noites adormecem em mim sem sobressalto.

 

Não sou livre quando em mim o tempo se desfaz de tempo.

Pág. 1/3