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Cardilium

Cardilium

Tu tens a marca

A marca da amizade presente (carta ao meu amigo sobrevivente)

 

A marca? ... Já tenho.

 

A marca, essa coisa por que se é conhecido. A marca do sol deixa a pele queimada. A marca do frio escurece a tez e analogamente a deixa queimada. A nódoa é a marca da sujidade. Sem mácula é a marca de coisa nenhuma aparente.

 

A minha marca já a tenho, as minhas danadas marcas, as minhas transformadas marcas, as minhas marcas amanhadas, as minhas imaculadas marcas, as minhas marcas alteradas, o meu futuro sustentando nas marcas, o meu passado de marcas de verdade, o meu dia marcado, a minha noite marcada, a mulher que me marcou, o dia que me marcou, a musica que me marcou, a morte que me marcou, a viagem que me marcou.

 

O efémero que a marca tem, o definitivo que a marca oferece.

 

A marca de dor, a marca de paixão, a marca da distância e da saudade, a marca da presença, a agonia marcada e a marca da fé. A marca da amizade presente, a marca da verdade, a marca da mentira, a marca da transformação e a metamorfose da marca, a marca do pintor que pinta e do escritor que escreve.

 

A marca existe, importa, acarreta e induz. A marca sara e sangra. A marca é património e fortuna, desgraça e amplitude. A marca da nostalgia e do desespero, a marca da moda e do antiquado. As marcas não são apenas as marcas. A marca que nos marca marca-nos os dias, a vida, a decisão, a expressão, a luz, as lágrimas, o sorriso e o olhar.

 

No olhar, se eleitos formos, detectamos as marcas, translúcidas da confiança ou o envergonhamento olhado pela timidez. A marca da vingança pelo olhar não olhado. A marca do amor pelos lábios enfeitados. A marca da carência pelos dedos no cabelo passados. As marcas da altivez, na forma de como as passadas são oferecidas. A marca da humildade pelo conjunto sereno da marca.

 

As marcas não interessam coisa nenhuma na sua forma ostentada, e são a essência principal na sua forma humanizada. A marca está cá, sangrada e sarada no mesmo acto.

 

Tu tens a marca da humildade pelo conjunto sereno que vestes, tu que és eu, e eu que sou tu.

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