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Cardilium

Cardilium

A vida é justa

Posso partilhar de uma forma sublime sobre amor, paz, luz, espiritualidade, amizade, conceitos, ideais, preconceitos e felicidade.

 

Posso ilustrar com lindas paisagens ou gente bonita, mas nunca poderei escrever sobre o meu património, com a minha letra, pela minha mão, com o meu sentir, se nada tiver para dizer, se nada tiver sentido na “pacatez reflexiva”.

 

Posso esconder-me nas palavras dos outros e ter muitos seguidores, mas não posso ser amado pelo que escondo, porque só se é amado por aquilo que se é, demonstra ou cria.

 

A vida é a soma de todos os dias em que senti, de todos os dias em que sou, de todas as quedas que dei, de todas as vezes que me levanto, de todos os abraços, de toda a saudade desenhada pelas lágrimas mais do que pelas gargalhadas, de toda a ausência, de todos os reencontros.

 

A vida é justa, pode não ser na hora em que eu escolho, é ela que decide o momento de o ser, pode tardar mas não falha, e é nesta crença experimentada que posso escrever de uma forma sublime sobre - amor, paz, luz, espiritualidade, amizade, conceitos, ideais, preconceitos e felicidade -

Extracto da uma fala de um personagem de “ A gosto”

“ … Não entendo a miserabilidade da facilidade com que as palavras são ditas, as opiniões são mudadas, a vontade transformada, a decisão vandalizada. A coerência não é um conceito idílico, é uma atitude. Jamais farei um contrato sob a forma de amor. O amor não se contratualiza, ou se serve em banquetes rodeado de gente que pactua com um facto que não tem vigência, com fatos bolorentos e cheiro a naftalina num dia para esquecer e não para lembrar. Não se celebra a hipocrisia contratando a bênção dos deuses. Não se representa a felicidade.

 

Que pobreza habita o amor?

Que dolo é este da falsidade do amor?

 

O amor são dores assentes no ombro de quem nos ameiga a alma. É a compreensão dos dias. A liberdade de ser. O amor não é a substituição terrena e individual dos indivíduos que se servem uns dos outros, pelo amedrontamento de se ser só por enquanto.

 

Não deveria ser o medo social infligido pela incapacidade de se dar ao próprio, o ombro na forma mais genuína e honesta que existe? - o amor-próprio -.

 

Só estou preparado para a divisão do amor partilhado quando me admirares pela música que não oiço, pelo que leio e não entendo, pelo que sou sem ter que ser o que não sou e, não ter que dizer que sei o que não sei e/ou gosto, de outra forma fantasio uma paz, que de paz, só tem o pensamento podre da podridão da mentira, enquanto isso, vivo das recordações por cicatrizar do teu corpo e da tua boca que quero em mim, todos os dias é contigo que eu estou, e todos os dias finjo que estou, sem estar.

 

Experimento assim a decisão que tomei só porque tinha que tomar, iludida que o meu deus escolhe por mim.

 

Sabes, não reconheço felicidade no teu olhar, a tua expressão não é de amor, os teus olhos não estão incendiados e brilhantes, sei que não, porque já te vi com luz e paz n´alma.

 

Agora vejo somente uma baça e enfeitada mulher, irreal e triste. É o que vejo, é o que se vê …”

O homem sem nome (monólogo)

texto protegido pelos direitos de autor@copyright

 

Capitulo I – Mãe -

Vou-me embora desta terra que já não é terra. Desta terra que me foi dada à nascença. Desta terra que é a minha mas a quem eu já não pertenço. Desta terra brava de fome. Sem céu e sem sonho. Sem sonhos. Tão longe do mar que quero conhecer. Mais longe ainda das estrelas, do que de deus. Vou-me embora desta terra de arrependimento. Desta farta solidão e de minha mãe.

 

Não. Não posso mais ficar aqui apenas por ti minha mãe. Não merecemos isto. Nem tu, nem eu, nem o homem que te fodeu na noite em que por aqui passou, e fez de nós mãe, tu e eu. Quero saber de outras terras. De outras estações. Quero ser alquimista e sentir o vento norte soprado na minha face. Vou-me embora, sabendo que a saudade me esfaqueará todas as noites, e que as tuas orações me embalarão a mim não crente, a mim ateu. Mas o que vale para mim mãe, é saber que a tua fé te mantem, é saber que a tua fé te vale. Não nasci um homem bonito. Nasci o filho da Laura. Cresci sendo o filho da Laura. Fui à escola a ser o filho da Laura, e agora mãe, chegou o dia em que o filho da Laura se vai. Tu. Mãe. Laura. Ficarás cuidando de tudo como sempre de tudo cuidaste.

 

Terra, campo, poeira, mesas, portas, chuva, arco iris, nuvens, céu, lua, ribeiro, pão, semente, maças, cão, padre, carabineiros, contrabandistas, fado, de mim, de mim, e de mim.

 

 

Capitulo II – Pai -

Saí de madrugada antes que o dia me retirasse a coragem. Sem caminho. Sem terra. Apenas carregava em mim um furacão no peito. Uma dor que era mais do que uma dor. Uma saudade que sabia que iria viver todos os dias em mim, mesmo que a minha vida fosse mais horas, dias, semanas, meses, anos, décadas do que eu soubesse que iriam ser. A vida seria a saudade daquela terra doada a um homem que não lhe pertencia. Um homem, filho de um homem que não foi um homem. Um homem filho de um pai que não foi um pai. Um homem filho de um homem sem nome. Sem rosto. Sem cheiro. Sem memória. Sem merda nenhuma que um pai de um filho homem deveria ser. Um homem sem terra como eu, talvez. Um homem sem homem dentro.

 

Há homens sem homens dentro. Nunca tinha pensado nisto antes. Há homens sem homens dentro. Há homens sem homens por dentro. Há homens sem olhar dentro. Homens sem mãos que se lhe apertem. Há homens sem peito que se lhe abrace. Há homens sem sentir que se lhe afague. Há homens sem braços que se lhe segurem. Há homens sem caminho. É disso que vou fugir. De um homem sem caminho.

 

 

Capitulo III – Cidade -

A esta cidade chamo Dezembro. Sem sopa e pão de uma forma igual e justa. Não há alegria na avenida da Liberdade, nem liberdade na praça da Alegria. Na estrada da Luz só existem trevas, e no Calvário, estende-se a cidade inteira. Em Belém não já não existem estrelas e os astros já não sobrevoam o rio. A cidade é fria e deserta. Sem sorrisos. Não existem olhos levantados do chão. É acinzentada, da cor de solidão, Os vestidos esguios das mulheres alegram-me um pouco. A cidade está desertamente edificada. Nos jardins soa inerte o perfume das acácias. Esta estranha forma de existência tem gente. A solidão parece não ser solidão, e a amizade confunde-se com presença. O amor vende-se nas esquinas apregoado nos decotes atraiçoados. Esta cidade é como dezembro na minha terra. Os anjos estão recolhidos nas tabernas das ruas curtas, na esperança parca de que a fé os torne mensageiros. A cidade, a cegueira, o escritor. A cidade recorda-me o que não me lembro. A vida e a morte estão mais perto do que sempre.

 

 

Capitulo IV – O amigo escritor –

Na janela deflorada penduro sóis que guardei,

Brilhos que trespasso,

Em troca de pedaços de vida.

 

Nas escadas defronte da rua que desço,

Calcorreio verde musgo entre as pedras húmidas,

Um rosto antigo revisita-me o pensamento, mãe.

 

Ao céu declino o convite. Vou.

Parto pensamento fora, no exercício que quero colher semeado. 

 

Na taberna da rua curta encontro-me com o Valdemar. Belo nome penso eu. É nome de homem de mar. Vale … de … mar. Valdemar. Sabe muita acerca dos homens. É um homem com homem dentro. Já não vai para novo. Mas isso da idade não conta. Um homem só é homem com setenta anos e tal. Ele não tem a soma dos anos agregada. O Vale do Mar (Valdemar) é a minha cidade. É o meu chão. As minhas ruas da cidade. O meu vinho. O meu homem com homem dentro. Um poeta. O caminho. O Valdemar levou-me a ver o mar. Não poderei nunca esquecer o dia em que vi o mar. O mar é a coisa maior que vi depois da minha mãe. Tem a cor dos olhos dela. Tem o andar como o dela e o cheiro dela dentro. O Valdemar não disse nada até eu parar de chorar. Depois de eu parar de chorar, também não disse. Chorou somente.

 

Disse-me, depois de a noite já ter fechado o dia, que viu o mar pela primeira vez pela minha idade, depois de pela madrugada ter saído da sua terra antes que o dia lhe retirasse a coragem. Falámos muitos dias de todos os dias. Falámos muitas noites de todas as noites. Falámos muitas madrugadas de todas as madrugadas. Falámos na cidade que há dentro das ruas curtas da cidade. Das mulheres. Das crianças. Do fascismo. Da democracia. Da liberdade. De sexo. Do Lobo Antunes e do Saramago. Da Sofia Melo Breyer e da Florbela Espanca. Das mães. Dos pais. Do pai do Vale do Mar, que não foi um pai feito de pai, de homem feito de homem. Agora sei mais palavras. Conheço mais ruas. Pracetas. Esquinas. Avenidas. Prédios. Tabernas. Mulheres e … mar.

 

Um dia como todos os dias dos meus dias chorei. Acreditei até num deus secreto e selvagem, mas o vale do mar não chegou mais, não partiu mais. Deixou-me na taberna da rua curta, umas folhas que não quis que fossem com ele a enterrar, designando a sua entrega num: para o homem sem nome.

 

A minha fortuna é o meu espaço. Não possuo riqueza que me exclua o sono. Sou dono de bens que me exaltam em forma de vida. O engrandecimento que tenho é por tudo o que não tive. Não crente, não deixo de rogar. Não crente, não deixo de verificar. Não crente, não deixo de me sentir afortunado. É à natureza que me vergo, com as crianças que me fascino, e com os velhos que me cultivo. Numa prece inventada dirigida e desprovida de entidade, elevo-me numa paz que procuro e perco e, perdida reencontro. Tenho um rio, um pedaço moreno de mar, passadas do meu caminho, sorrisos. Tenho áfrica, uma canção, um livro, um poema, sal desprendido nos olhos. Não tenho roupa cara. A minha fortuna habita-me. Vive num sítio pequenino dentro de mim. Parti sem saber o teu nome. És um homem feito de homem, sem nome.

 

Capitulo V – o bairro –

No meu bairro, o meu olhar vagabundeia no vazio da imensidão que me sacia no escuro entristecido dos meus olhos. Os meus passos escrevem palavras sem nexo, aos olhos da humanidade construída por eruditos. O meu passado, outrora descrito por um louco escritor que apodreceu entre as palavras, as garrafas, o fumo, e as mulheres que amou sem bem-querer, encaminha-me. Li-o muito. Reli-o tantas vezes que me vi nele, tantas, tantas vezes, que me revejo nele.

 


O meu sentir único e exclusivo é-me querido. Cada voo de gaivota não me é indiferente. Pinto cada rocha como se fosse ímpar. O nevoeiro é em mim o arco-íris no delírio sábio da minha fantasia. Salto de sonho em sonho. Arranjo o tempo como se o concertasse e, escrevo. Exorcizo-me.

 

Gosto das pessoas que me gostam mesmo quando não me gosto. Não sou fácil. Assusta-me a minha sedução pelo vazio, o inexplicável, o suicídio, a solidão, o medo, o desafio, a morte mais do que a vida. As partidas mais do que os regressos. As minorias, os bêbedos, os drogados e as prostitutas, são-me queridos. É como se a miséria colorisse a minha vida. Fantasio festins de alegria com as minorias. Vejo-me louco e feliz e felizmente louco. Nunca mais faço as malas e parto, arre porra!

 

Anseio real o pensamento. Sinto os lábios de rocha e pedra. Amo esporadicamente os momentos. Assim, antes da vida, do mar e da terra…Os acordes, o vento e os cravos”.

 

Este bairro que não sei se me habita ou se eu o habito a ele, está para mim como a minha terra esteve um dia, no dia em que saí de madrugada, antes que me desaparecesse a coragem, e, desorientado fico com a minha pertença, nunca sei se pertenço, se me pertenço, ou se sou pertencido.

 

 

Capitulo VI – A morte -

Soube que a minha mãe morreu. Sinto-o. Não conseguirei mais prosseguir sem regressar aquela terra que me foi dada à nascença. Aquela terra, a minha. Despertencida. Aquela terra brava de fome. Sem céu e sem sonho. Sem sonhos. Longe do mar, estrelas, de deus, farta solidão e de minha mãe. Preciso lá voltar e enterrar-me naquela terra e voltar para junto do mar. As minhas vísceras rodopiam no meu peito. Não durmo. Perdi a fome de beber. Perdi a tesão. O desejo do beijo. A vontade de me afoguear.

 

Chove torrencialmente dentro de mim. Brados sufocam-me a visão e desentendo-me com o desconhecido. Desabituado a desconhecer o trilho, só me resta oferecer a minha mão e deixar-me guiar. Adormeço sossegado nesta turbulência que não o é, quando em presença. Todos os dias menos um, foram iguais na minha existência. Momentos iguais progrediram em mim em regressão, uns amorfos, outros desencantados, uns feitos de um falso domínio, outros de conhecimento, mas todos eles albergaram a mentira do entendimento, e a compreensão da anti entrega.

 

As ruínas apenas deixam de o ser depois da obra estar edificada. A surpresa da escolha, do escolhimento, ou apenas da disponibilidade do sonho, tornou real a conversão interior numa alteração partilhada.

 

Quando o céu se debruça e nos toca, as nuvens irradiam uma fragrância de flor. Quando a terra se rebola e nos atropela não resiste em nós mais o medo, e a confiança tem como resposta a expressão da natureza na nossa pele. A imobilidade do sentir não se explica por palavras elaboradas de conceitos. Entende-se pela luz incolor, cega e brilhante. Quando assim é, não existe querer, existem quereres. Não existe vontade, existem vontades. Não existem poetas, existe em nós poesia e, as canções bailam-nos na cabeça a cada verso vivido. O amor é feito olhos nos olhos, sem pressa. Os orgasmos são confirmados pelo abraço seguinte e o acordar da manhã subsequente. O sexo é mais sexual do que alguma vez o foi e, não tem  nome, ou cognome, não carece de dúvidas nem de certezas, é somente a fusão das almas, sem regresso ou avanço, é somente o sorriso e o descanso. É uma decisão interior esta coisa de se entregar o amor.

 

Abundante, solto o rio e escuto o bando que ruma a sul. Copioso, exponho em mim este quadro arrecadado durante anos e planto a árvore da minha vida, num pedaço de terra aguardado, quente e fértil.

 

Chove torrencialmente dentro de mim, e vou nesta enxurrada visitar a terra que cobre a minha mãe.

 

 

Capitulo VII – Regressado -

Sabia que se lhe tocasse me sairiam palavras pelos poros. Se a alma o pecado ou se, simplesmente aquele sorriso fora o que eu esperara toda a vida em que já morto vivi. Os três bairros serão sempre os mesmos três bairros sem a minha frequência. Os prédios deterão sempre as mesmas entradas cortadas de gente, e o medo da chegada vigorará sempre, como o medo da partida. Não me reconheço nalgumas horas em que me desnudo. Não me conforto nalgumas horas em que me reconheço. A estrada de regresso sempre foi menos dolorosa do que o caminho da partida. Os mesmos bairros, as mesmas estradas, os mesmos prédios, habitar-me-ão apenas quando o mar não me suster. Mas os mares sustêm-me.

 

Mãe, partiste sem ver o mar, pior, sem que ele te tivesse visto a ti. Não viste o vale do mar, o poeta, o amigo, o homem que cuidou de mim, com o homem de que ele era feito. Partiu sem saber o meu nome, sem sequer saber que eu não tenho nome.

 

Voltei hoje a esta terra feroz, impiedosa. A nossa casa continua desabitada, e a porta entreaberta. O teu cabelo balança ao vento no alpendre dependurado, os teus chinelos estão como a bussola que guia os mares. Mãe, a cidade é feita de ruas curtas. Não existe horizonte, e os sons são mestiços e misturados. Esta terra que te cobre é mesmo terra Da boa. Tem cor de terra. Cheiro de terra. Tem água dentro. É fértil. Voltei para saber se estavas bem enterrada, se te tinham posto a medida de certa de terra, os sete palmos bem medidos que a ti são devidos.

 

A vida não te foi madrinha. Na morte, eu não ia admitir a mesma sina. Se é para pôr terra em cima, que nos ponham. A ti e a mim. Não é não dar nome a um homem, e ainda por cima pouparem na terra. Não te queria numa campa rasa mãe, quero te numa campa que pareça uma onda do mar, e que depois da campa se faça um vale do mesmo mar, e assim, os teus restos mortais sossegarem-me quando sonhar contigo. Preciso de chorar isto, mãe. Preciso de ranger os dentes e chorar esta raiva de nós, das nossas vidas, dos nossos anos juntos. Tu eras esta terra mãe. Tu foste este ar, esta serra, este ribeiro, esta nascente, esta sementeira, este sol, esta lua, estas estrelas, este cheiro a lenha ardida, tu foste, tu és a despedida.

 

Matei esta terra de fome brava e de um homem sem nome. Agora que já não estás, mãe, eu posso ir, levarei este choro, deixarei esta sina. Vou voltar para junto do mar. Para a cidade dos bairros e das ruas curtas. Amantar-me-ei com uma mulher de decote traiçoeiro e, faremos uma filha, a quem baptizarei de terra mãe, se for homem chamar-se-á, vale do mar (Valdemar).

 

Partirei de madrugada, antes que o dia me retire a coragem.

 

texto protegido pelos direitos de autor@copyright

O amor nunca é avassalador

O amor nunca é avassalador, amar os defeitos leva tempo.

 

Avassalador é a descoberta do corpo e a mentira do ajustamento agradador.

Depois, o tempo demonstrará se o cheiro a flores continuará no teu corpo e no meu,

saberemos se a admiração cresce com a saudade,

se passearemos de mão dada como se o mundo fosse habitado por ninguém,

se a madrugada de areia e mar e tu, me ouvirão cantar aquela música de dois acordes e o poema que me sai num sorriso,

se nos olharemos meigamente como os nossos corpos se presenteiam,

isto sabendo que somos tudo isto e, não somos tudo isto também.

 

Somos dúvida, medo, cansaço, doença, raiva, dificuldades e vida, somos vida.

Será que nos amaremos com vida?

 

Quem amei, amarei sempre, há cheiros que me arrebatam a alma, outros nem tanto.

Gente feita da minha gente

Mais um dia de menos um dia,

De um dia a menos do dia que me anoiteceu,

Gasto assim os dias que se distanciam,

Acumulo menos um dia da distância sobre mim,

Regresso desta viagem alucinante que foram os dias dos anos que passaram,

Das vezes em que me senti tão doente que a loucura me pareceu lucidez,

O meu corpo fraco cedeu às noites de retiro,

Quero agora embebedar-me de gente boa e feliz,

Gente feita da minha gente.

Sempre volta a certeza de que sentir não é um erro

Já me entristeci com a alegria da descoberta,

Já me alegrei com a tristeza da separação,

Já me entristeci compreendendo a ilusão,

Já me alegrei na dor da confirmação,

Em toda a tristeza,

Em toda a alegria,

O tempo sempre me abraçou.

 

Largos dias têm cem anos,

Sempre volta a certeza de que sentir não é um erro.

Os livros

Os livros ardem intocáveis nos escaparates,

Poesia de poesia saboreada nas mãos trémulas de quem os folheiam,

Quem escreve não se define nas palavras,

O que esclarece, limita ou elucida,

É a paisagem que se percorre nos olhos de quem vê lendo,

De quem sente sendo,

De quem chora por quem amarga,

De quem ri por quem afaga,

De quem faz plural o singular,

De quem não se cala e se transforma,

De quem por ser poema se incendeia,

De mãos trémulas num livro que se salva aberto por estar fechado.

 

Texto de 1986 depois de uma noite em branco

Texto de 1986 depois de uma noite em branco

 

Li isto recentemente - "encentivoute" - lindo, palavra adoravél, muito bom, e não é escrita inteligente, é da outra (da menos inteligente não sei que nome dar).

É como ouvir marilyn manson numa "danceteria". Até tem a ver. (já vi e ouvi marilyn mason quando me drogava :-)  não é uma critica é uma constatação irónica e divertida)

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades.

Ontem gostei de uma autor, afinal já não gostei, gosto de outro, depois de um musico, depois de outro, depois, depois, depois, sempre depois e como não gosto de nada, gosto do que acho que os outros gostem que eu gosto, e saltito assim de nenufar em nenufar como se fosse um elefante num ginásio da moda. 

Valia mais mais gostar do que gosto, assumir, empinar o nariz e depois, qual é o problema, o assunto ficava resolvido, não me trocava, não me baralhava e evitava prostituir-me intelectualmente também, e pronto,

As coisas são como são, quem vai vai, quem está está.

(ah o texto não é de 1986 é mais recente, nao me "alembro" da data)

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

Sei que rejuvenesço qual Fênix das minhas próprias cinzas

Sedento de me madrugar neste hemisfério,

de chocar contra mim próprio,

cruzar-me comigo por aí e trazer-me de volta,

 debruçar-me à janela da minha alma e ver-me regressar,

estafado,

com o olhar de brilho vivo e esperançado,

não baçento de cinza esverdeada e sem expressão,

sem culpa por cumprir ou pecado por confessar,

limpo,

afinal sempre soube o caminho

sempre soube o erro da escolha,

a cada instante,

sabia-o, sentia-o,

a compaixão tortura-me agora com a certeza da pobreza da humanidade

 

Abraço-me.

Sei que rejuvenesço qual Fênix das minhas próprias cinzas. 

A modernização dos bimbos e as redes sociais

A modernização dos bimbos e as redes sociais.

 

Foi um "dádiva cultural" nalguns casos e a "potenciação azeiteira" noutros ".

Nuns casos percebeu-se finalmente que Fernando Pessoa e Sophia Melo Breyner Andersen existiram e "escreviam umas merdas".

Percebeu-se que existiam uns tipos que faziam música com bons poemas e acordes a condizer.

Percebeu-se o privilégio que é ter um sítio porreiro para exorcizar o pseudo-erotismo e as fantasias dos filmes de adolescência.

Percebeu-se a optimização da cobardia do voyeurismo da vida dos outros e os "recados".

Percebeu-se que podemos sentir como vai a vida dos rivais e amantes, e o nosso amor proclamado aos animais.

Percebeu-se que podemos mostrar-nos de costas, de esguelha, com exaltação à descoberta do caminho da felicidade, escondendo um olhar entristecido e envergonhado, só porque se quer dizer ao mundo o antagónico do que se sente.

 

A modernização dos bimbos e as redes sociais, é uma dádiva !...