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Cardilium

Cardilium

Quero o silencio inundado de volta

Quero o silencio inundado de volta e as nuvens soltas da minha infância,

Quero sentir a escuridão da noite sem raios que me ceguem a esperança,

Quero a inocência de volta e o frio fora das estações.

 

Quero sentir-me livre na prisão que os anos me entregaram,

Quero ser, estar, cantar e dançar,

Não quero ter porque não sei possuir.

A noite que foi da lua na madrugada que alvorece

Se eu fosse a minha sombra,

Seria trevas e luz e um homem duplicado.

 

Sem ser a minha sombra,

Sou um esboço de mim,

Com tantos e vorazes sentires,

E mil pensamentos sem fim.

 

Sou o mesmo e sou o dobro,

Sendo igualmente eu,

Como o mar que é desigual,

E o vento semelhante ao céu.

 

Sou como a terra remexida que escurece,

E a noite que foi da lua na madrugada que alvorece.

Dias velhos iludidos que são novos

Dias velhos iludidos que são novos,

Sem substancial mudança que assusta,

E dá-se à reforma do mês, dia ou ano,

O advento da transformação,

Renegada todos os dias anteriores.

 

Creio na metamorfose sem data que a defina,

E nos dias não numerados,

O meu velho coração tem a mesma definição,

E a roupagem que o forra é na mesma emoção,

São os velhos dias iludidos que são novos.

O demasiado óbvio não me seduz

O demasiado óbvio não me tenta. Podia até escrever frases muito sexuais e desenhar mulheres despidas, mas não é isso que me seduz. Gosto de mulheres vestidas e do prazer de despir, o obsceno evidente não me provoca, o que me seduz não é óbvio e fácil, é difícil e não banal, ensinou-me isto a natureza reguladora da minha libido.

 

As nuvens são ondas do mar depositadas no céu. São borboletas pintadas de flores. São o deserto estendido no horizonte. São as labaredas que ardem de fogo na lareira interna do conforto. São o beijo que aguardo guardado nos meus lábios de floresta. São o cheiro a pinho bravio doce no meu peito.

 

Na verdade, o demasiado óbvio não me seduz. Nada.

Um adeus sem despedida

Um adeus sem despedida e um até já sem medida,

Um até logo sem fogo,

Uma ponte que nos juntou,

Um mar transbordado de prata,

Os teus seios gritando abraçados no meu peito,

Pele a arder com a pele,

Dedos dados entre as mãos,

Corpo no corpo desconhecido de corpo,

Sobra um adeus sem despedida e um até já sem medida.

Palavras por ver o sol um dia XIX

“…. Quem me tirou a luz? Sim, quem me roubou o escarlate e o fogo, e me fechou o postigo por onde ainda gemia uma réstia de luz baça. Mesmo bacenta é luz. Quero-a de volta ao postigo de onde a arredaram.

Calma avó. São os teus olhos que cada vez estão mais escuros, a claridade no postigo está cá, eu vejo-a.

Tens a certeza? Sim tenho, estou a tocar-lhe com os dedos e a desenhar figuras que me fogem.

Hum, não me desencantes Mari´estrela, não me desencantes tu também. Sabes uma coisa? A vida devia ser vida, apenas e enquanto é vida, depois já não é vida, mas mesmo assim ainda por cá continuamos vivendo. Sabes que mais, deus errou muito, muito e sempre. Já a madrugada mesmo com aqueles olhos de nevoeiro bacento como a réstia de luz que eu via pelo postigo, errou menos.

Sabes outra coisa? A madrugada é a tua mãe, foi ela que te trouxe, depois de uma noite de alvoroço, ainda os meus olhos eram claros como o nascer dos dias …. “

Não deixo de ser por tu seres

Não deixo de ser por tu seres,

E por tu seres quero ser também,

Desalinhado, comprometido,

Ser sempre eu e mais ninguém,

Com riso próprio e choro meu,

Por tu me seres alguém,

Lado a lado,

Sem par,

Nem mão,

Ser tu e eu,

Abraço,

Paixão.

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