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Cardilium

Cardilium

mesmo

Hoje trouxe o meu corpo para me acompanhar,

quem sabe se não me fará jeito,

tal é o desejo que ele tem do prazer que lhe dás.

 

Este prazer sem o prazer do teu sorriso e ais,

ou da tua forma de olhar,

não seria nunca o mesmo,

mesmo que o teu cheiro e as tuas mãos cheirassem ao mesmo,

e me tocassem da mesma maneira.

míseros momentos em mim espelhados

Sou o lavrador que lavra a terra que abunda em mim,

Sementeira bravia,

E doce colheita.

 

Sou a lágrima que enche o bornal,

E o sorriso no lençol bordado,

Entre a escolha e o acerto.

 

Sou a palavra que incendeia as nuvens,

Nos míseros momentos em mim espelhados,

Na face lavrada de vida, da terra que semeio e colho.

Fica comigo onde existirmos

Espera-me na ponte logo pela manhã cedo quando o rio ainda estiver adormecido.

Leva os teus desejos e aquele brilho que pões nos olhos.

Não precisas de levar mais nada para eu chegar antes de ti ou duvidar até, se não estou já lá, ou se de lá nunca saí.

Espera-me antes que qualquer raio de sol.

Espera-me antes da chuva.

Espera-me antes de tudo, porque antes de nada já eu estarei junto ao rio adormecido, esperando a tua espera.

O meu corpo fica inerte na margem na esperança que me faças vivo desta morte desesperada.

Põe as tuas mãos na gélida água adormecida e desperta-me.

Canta-me aos pássaros da madrugada.

Parte comigo para onde não existir mundo.

Fica comigo onde existirmos.

almas desnudadas

Pode a distância separar duas almas desnudadas? Desnudadas de verdade mais do que de vontade. Duas almas unas que constroem pontes de pensamento e florestas de entendimento, juntas sem espaço físico nem necessidade da sua presença, porque jamais mudariam o que já possuem. Logo, estarem afastadas por um mar de intervalo, não promove não existir a existência, não são separadas, como o não são os átomos de uma molécula em anéis indestrutíveis de bem-querer. É alma com alma, independentemente do sítio onde estão.

Depois existe a carne que vincula a alma na sua forma mais terrena, e, é nessa espera serena que existe o amor, a entrega da alma sem distância nem tamanho. É nessa espera de se saber que o dia chegará, e na certeza de que as partículas do tempo “alma com alma” fundir-se-ão em alma com corpo e corpo com alma, e beijos, e gemidos, e orgasmos, e corpo congregado com corpo, sem que as almas se separem dos anéis da floresta do entendimento da proximidade. Posso sentir-te aqui, antes de aqui te sentir.

Beijo-te então a alma com o coração Rosie.

Choves torrencialmente dentro de mim

Choves torrencialmente dentro de mim,

Levas-me e elevas-me,

Tal enxurrada incontrolável,

Na árvore, o meu amor enlouquece,

Amadurecem as flores já perfumadas,

No meu jardim de mar de giestas,

Aguardo rebolar-me nos teus beijos adoçados.

Ali vi ela

Nascente,

Olhos de água,

Tarde pousada no vale perfumado das madressilvas.

 

A saudade veste-me num arrepio,

O vento salpica-me cada passada,

O rio transborda na fonte.

 

Os teu olhos fundos,

Assemelham-se cristalinos à água que jorra dentro as pedras,

O caminho emudece as palavras desfeitas de paraíso.

Extracto de palavras por ver a luz um dia VIII

"… E calmamente sentados sobre o próprio sentir continuavam a conversar sem dizerem qualquer palavra, eram os olhos que lambiam os vocábulos e os tornavam perceptíveis ao coração. Daquele imenso ruído mudo, de repente, ergueu-se uma expressão:

- “Tenho-te sentido voar, por isso presumo que voas, e se voas é porque tens asas, logo, sinto que tens deixado o arrepio comandar a tua alma”.

- “E leste isso tudo nesta lágrima que me caiu?”

- “Sim li. Li nessa lágrima de silêncio e na complexidade da sabedoria da simplicidade que tu consegues.”

- “Enches-me, sabes? Entendes a minha alma. Falas o meu dialecto e vês-me para além deste silêncio ruidoso”

E calmamente sentados sobre o próprio sentir continuavam a conversar sem dizerem qualquer palavra, apenas deram as mãos …"

Extracto de palavras por ver a luz um dia

“ … Nasci aqui. Sempre aqui vivi. Os meus familiares morreram aqui, e, eu sinto que aqui nunca pertenci.

Como poderei eu adiar uma vida? Um lugar? As pessoas? Os jardins? As chamas que me ardem dentro? Ou o amor?

As feições das pessoas que passam por mim explodem ou num arreganhado franzir de testa, ou num sorriso que me sabe a fel. Não há normalidade. Não há existência. Por aqui me passeio, adiando as horas em dias que não se regeneram em mim.

Se regressasse ao útero que me encomendou e nascesse de novo? Voltaria a crescer de urgência? Voltaria a saborear estas ruas cheias de gente desertificada de humanidade? Voltaria a ter o mar como sonho e a floresta como recanto? Voltaria a não confiar no padre de voz sumida e sorriso forçado? Voltaria a partir e a ter amigos que partiram antes de eu chegar?

Disfarçando as lágrimas nos tombos das esquinas sufocadas de ninguém, andei mais uns passos rua abaixo, e as pessoas sem hesitações de simpatia, ora franziam a testa, ora doavam um sorriso.

Para mim dava igual. Eu não pertencia a este sítio, mesmo vivendo neste lugar … ”