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Cardilium

Cardilium

Castelos de horizontes

Se no horizonte brotassem castelos de flores dos teus olhos

                                                       .... eu existiria para sempre a poente do teu olhar…

Desprendidas as palavras !...

As palavras vivas soltaram-se do meu porto,

desprenderam-se mortas da ilusão de as ter presas,

imunes à infecciosa epidemia de querer dizer sentindo,

o que sinto dizendo no que escrevo,

as palavras pintadas na tela que construo,

em tons pastel e purpura nitidez,

soltaram-se do meu porto,

desprenderam-se de mim,

já não me pertencem,

têm vida,

não têm fim.

Lua

As luas não são todas iguais, e não é por serem metades, crescentes, minguantes ou novas, não o são pelo céu que as alberga, pelos olhos que as vêem, pelos corações que a sentem, por todos os outros elementos que a evidenciam.

 

As luas não são luas.

As luas são a lua.

Hoje está clara, amanhã mais clara estará e poderei nem sequer a ver.

 

A lua é ancestralmente os degraus que subo na escadaria da minha emoção.

É como uma aferição equacional da forma como me sinto, de variáveis diferentes, de resultados iguais.

 

Já me zanguei com a lua por a ver só.

Já me abençoei com a lua por só eu a ver.

Já me privilegiei com lua por ela se me mostrar: sedutora, silenciosa, irresistível.

Já fiz tudo com a lua, como se ela fosse só minha e mais ninguém a pudesse tocar.

E isto é verdade.

A lua é minha, ninguém a vê como eu.

Ninguém a sente como eu.

 

Ninguém sobe os degraus da escadaria da minha emoção como nós.

Eu e ela.

A lua e eu.

Palavras de gente

Preciso mais do que todas as palavras do mundo,

Preciso das palavras com gente dentro,

Mar e diluvio,

Gente de gente,

Construção,

Palavras, metamorfose, acção

 

Preciso mais do que todas as palavras do mundo em decisão!

 

Óbvia madrugada

óbvia,  

intemporal,

esta madrugada que não se põe,

árdua como a encosta,

que a detém.

 

precipício,

mar verde,

lua amante,

azul,

salgam-me os olhos de luz …

 

… na esperança obvia e intemporal que a madrugada me encontre.

Dia de luz

Tenho engomado uma vestimenta que hei-de vestir num dia de luz,

cravado com teu nome viperino,

assaz me sinto, envenenado peregrino.

 

Pôs-se o arco iris no fundo da planície,

as árvores balançam como gente,

do lado de fora de mim, dor aguda, pungente.

 

No cabo de mar,

desconsolado solto as minhas mágoas,

dos meus olhos nascente, rebentam águas.

Despregada

Quando a tua ausência se desprega da minha pele,

a cor do vento,

a cor do verde mato,

volta a ter cheiro a lilás,

da alfazema do teu olhar,

A meio caminho ou a meio do caminho?

A meio caminho, ou a meio do caminho, fica o atalho, fica a estrada que me leva ao destino?

 

Acordo de uma manhã já atrasada de dia. Olho o vento que dança com as árvores e o sol depositado no céu que aquece o meu alento.

 

Vem-me à memória todos os dias em que fantasiei o amor.

 

Já não tenho memória que me baste para abarcar todas as odes ao amor.

 

Fantasiei a projecção do amor no outro e, o contrário também foi verdade;

Fui o alvo cravado pela seta da projecção do amor do outro em mim e, o contrário também foi verdade.

 

Visto assim foi cruel, fui espetado no epicentro de mim mesmo por uma seta, sangrei e fiz sangrar.

 

Alivia-me esta reciprocidade do amor.

 

Os anéis do amor, as esferas do amor, deviam ter pontuação.

 

No centro significariam tudo, à medida que se afastassem do centro reduziriam a sua dimensão, seria tudo mais fácil no dia, em que nem no alvo se acertasse.

 

 

 

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