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Cardilium

Cardilium

Barcaça

Este cheiro remisturado de terra faz-me bem,
Cheira-me a antigamente,
Cheira-me a escadas gastas de madeira da minha infância. 

Cheira-me a memória e a felicidade,
Os cheiros alteraram-se,
O tempo alterou-se.

A lua desalterada esvoaçou,
A barcaça abarcada de ilusões,
Ininterruptamente soluçou.

Os rasgares de vida fecundam inalteráveis no meu peito.

A loucura e o amor

A loucura e o amor.

Que relação existe entre a loucura e o amor?

O amor só vale se for isento de juízo,

O amor ajuizado tem dias,

Dias contados pelas partes,

Antes de as partes terem os dias contados.

 

O amor tem a lua da loucura embriagada,

Tem camas moldadas na areia da madrugada pelos corpos incendiados de orgasmo,

Quero destemido subir em ti,

Como a madrugada sobe na noite e possui a manhã,

Hoje. Quero já.

Que amanhã não subscrevo a loucura do amor!

Sem endereço

Esta “coisa de existir” não é de fácil entendimento ou endereço fácil e viável.

 

A vida pelo número de anos que nos confere é curta. Quando lentamente começamos a perpetuar-nos ela esgota-se, extinguisse em forma de morte e existe como um final que entendemos sê-lo, não o sendo literalmente.

 

A morte são pequenas transferências de quem gostamos em nós próprios e vice-versa.

 

Se gostamos é porque vivemos com quem parte, a vida deles próprios com a nossa e, se vivemos essa vida conjunta então ela foi divididamente vivida, não existindo assim partida alguma, existe apenas parte de alguém habitando a nossa parte padecendo de metamorfose. Ficamos assim preparados neste momento para exultarmos a “dádiva”, “bênção” e a “alegria” que foi união.

 

Nos momentos mais reais da vida o sonho ajuda-me enquanto refúgio das tempestades. Não sei navegar esquartejado. Sei adormecer nas folhas sobrepostas da floresta. Consigo resolver-me no silêncio da montanha afastada da tormenta. Sei devolver-me à bonança no prelúdio da minha alma.

 

Esta “coisa de existir” não é de fácil entendimento ou endereço fácil e viável.

O encarceramento do tanto é a libertação do muito

Tenho os olhos em lume brando e as mãos em fogo.

Tenho nodoas negras no olhar e solidão nas rugas que me enfeitam.

Tenho o mar em gotas de gaivotas e suor na testa.

Tenho um sol ardendo de esperança esbofeteando-me.

Tenho cachos de labaredas ardendo no peito e romãs abertas no coração.

Tenho muito …

E muito é: … O encarceramento do tanto,

E tanto é: … a libertação do muito!

Recobro e readquiro o sonho quase inacabado

Recordo os sonhos lindos que me acordavam de sorriso nos lábios. Lembro-me do sono descansado que me alvitrava o sossego. Lembro-me do desventrado sentir quase inocente, e quase acabado. Lembro-me da passarada em primaveras recomeçadas. Lembro hoje a construção e as lágrimas vertidas de um sonho pendente. Lembro a dolorosa alma hipotecada vigente de retrocesso. Lembro o sentido contrário e o livre arbítrio de decisão.

 

Recobro e readquiro o sonho quase inacabado como margens de mim para mim.

 

Acabado este traço desenhado de vida, escrevinho decisões, recursos e acusações a mim mesmo. Este acto solitário é como uma esponja absorvida de afeição, parecendo-me bastantes vezes desamor.

 

Nunca acabada esta edificação de pensamento, desprende-se de mim em correrias loucas. Do peito para as mãos, das pernas para cara, dos olhos para a boca, e transforma-se num carrossel estonteante e ingreme. Inacabado, este poema está numa planície a que chamo inicio, ou está num termo a que chamo foz, e nem a foz é o termo, nem o início é a nascente, ambas estão inacabadas mas perpetuam-se fundindo-se.

 

Relembro-me apenas, não me lembro de nada.

 

Não me lembro do que que não sufoquei, não recordo o que não experimentei.

 

Afinal, lembro-me dos sonhos lindos e relembro os sonhos sonhados. A paz que explode em mim não é paz, é meramente vontade de senti-la.

 

A paz que me invade é paz que me adormece, a que toma conta de mim, a que me faz acordar de lábios encantados, e de sorriso silvestre com sabor a amora no âmago.

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