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Cardilium

Cardilium

Seis do doze

Semeado de vento o teatro da vida mudou de acto. A cena anterior terminara. A viagem foi rude e crassa, inimaginável, sozinha e dolorosa, como se na existência terrena os deuses tivessem mandado santanás descer à terra, e a ele tivessem designado por delegação, as suas ordens e desígnios. Uma viagem ensanguentada produziu-se-me na alma, corpo, mente e espírito. Nauseabundo e em aguas revoltas afogava-me devagar. Tão depressa as ondas me cobriam de escuridão, como depois na translucidez da cobertura das vagas, via o sol em raios inundar-me água adentro. Os meus braços feridos, exaustos e desistentes, de quando em vez renasciam de mim em braçadas decididas, fortes e vigorosas, para logo de seguida se apinharem de um veneno enchido de vida momentânea. Nesta labuta de suor e resistência, a meu lado cadáveres semi-vivos, outros semi-mortos, mas nenhum suficiente vivo ou suficiente morto, acumulavam-se numa encosta onde o verde do prado não era verde, onde as flores eram contaminadas e podres, onde se via a normalidade da avenida mais ao fundo, desenhada por uma mata com laivos de felicidade sobranceira. Sabia que só teria que atravessar a estrada, mesmo que o duvidasse, teria do outro lado o verde visto pelos meus olhos cegos e fechados. Apenas teria que os abrir e fazer me ao caminho, atravessando a avenida.

 

Atravessei. Deste lado sinto frio. Tenho medo. Não sei quem sou. Estou perdido. Não me olho reflectido ou conhecido em sitio algum. Quero parar. Desistir. Partir sem sequer ter que partir. Cada dia sem que eu me aperceba e após cada abraço, fico mais lúcido, mais quente, esperançado, reconhecido por mim próprio, visionário. Após cada noite o sono acaba por me vencer. Adormeço e acordo. Acordo para a vida. Uma noite até existiu em que sonhei. Deste lado o verde pestanejou. Ouvi música. Existe música, sabores, cores, olhares e pessoas. Os abraços prendem-me pendurados, tudo fiz abraçado. Fiz com os amigos e com eles aqui cheguei. Já nem me lembro da travessia, já nem me lembro do caminho. Andei, retrocedi, escrevi uma peça, sonhei e alcancei, fiz uma música e flutuei no mar sonhado sem me afundar, andei por montanhas e visitei vales e terras quentes, fui mais amado do que amei, mas amei. Por aqui vou ficar deste lado da avenida. Abraçado.

Fresca luz

O mundo pára,

Quando bebo os teus olhos da lua,

Os astros transluzem,

A pele morena,

Transpirada,

Da árdua jorna,

Emancipada,

Pedra apática,

Imóvel e tonta,

Frescas artérias,

Descuidadas,

Descuido-me com a tempestade,

Que me explode nas têmporas,

Em fráguas,

Mil almas,

Saudadas.

Despertencente

Aqui neste leito me ajeito da dispneia de me sentir acordado horas a fio. Não toco com os meus pés nos teus, agasalhados de pele macia. Já aqui não dormes há muitos anos. Não sei se alguma vez os toquei. Faço amor a olhar a espuma do mar. Na madrugada a lua cresce no céu, ilumina-nos os corpos. Faz frio. O vento fala eloquente e grita a cada rajada. Para lá do mar ou dentro dele, anda uma trovoada em reinação. Só a vejo pelos relâmpagos que respiram. Avisto-a ao longe. Parece-me até ser noutro país donde ela se me exibe, tal é a distância. Não sei se anda dentro do mar, fora dele ou para lá dele mesmo. Vagabunda luz esta despertencente, retórica, contraprova de autenticidade, trovoada muda. Despertencente. Seduz-me esta rara beleza, intocável, que se me anuncia e apaga. Retórica que me pronuncia sem palavras, tantas palavras bem ditas, benditos estes vocábulos. Palavras há que me parecem ter sentidos e vida. Palavras que nos abraçam, beijam e reconfortam. Palavras que são caminho. Contraprova de autenticidade. As trovoadas podem ser silenciosamente belas. Bradam os deuses em silêncio. Mudo e silencioso aquieto-me, abafo em mim o sal que me lava os olhos, em cada lágrima que me eleva a saudade.

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