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Cardilium

Cardilium

Destinatário

Leve desce a neblina e suave agasalha-se o sol. Juntos enrolam-se no mar, numa quietude que se pega aos meus olhos. Embalo-me. A serra rochosa sombreia a praia num descanso que promete retemperar. Ao redor de uma fogueira cantamos versos que juntamos a uns acordes. Dizemos alto o que não se pode dizer ao mundo. Saberemos que a mensagem chegará ao destino, mesmo sabendo que o destino é uma direcção que se ajusta ao momento.

 

O destino é um acontecimento. O destino não é uma escolha e não sabemos se existe antes de o ser. Os versos fortes e musculados têm palavras sentidas e doces, amargas e aventuradas, sonhos e descrenças, caminho, partidas e chegadas, amor e traição.  “Destino-te o meu coração” dizia um homem sábio. Durante toda a vida destinou-se mas o destino não quis saber do seu destino. Ignorou-o.

 

Foi-se então ajustando ao destino e aos acontecimentos. Tal como o amor, a angustia, o prazer, a verdade, a mentira, a fé e a frustração que são coisas do destino. Mesmo sabendo que o destino estava no abraço seguinte e naquilo que se pode fazer para o alterar. Como se pode fazer do destino destinatário, se o destinatário do destino várias vezes me pareceu estar enganado. Fizemos quadras e prosas ao destino, juntamos-lhe morna e fado. O destino não se modificou.

 

A natureza enuncia o destino, nem que seja pela decisão apaixonada de o vento soprar forte, de o mar se exaltar, de as nuvens se enfeitarem de negro antes de chorarem. O destino não é cognitivo nem emocional. O destino é um mistério aclamado pela fé e aceitação. O destino é mais um conceito para nos entretermos em nada fazer. O destino é pobre de espírito, é uma falácia. O destino não existe.

 

Aquele homem destinado observou uma vida inteira o destino e descreveu-o como um dia, uma hora, um momento, uma mulher, uma criança, uma musica, um poema, um nascimento, uma morte, uma paixão, uma soma, uma subtracção, uma partilha, uma palavra, apenas e, sem conhecimento real. O destino é uma realidade acontecida. Isso é o destino. O destino é uma decisão.

 

A fogueira queimou a lenha. As quadras e os acordes estavam cantados. A manhã ia raiar, e cheirava a pão quente no forno da rua de cima. O cabo do mar não tinha aparecido. A praia foi nossa e as palavras feitas de verdade. O destino tinha passado por ali aos bocados.

E... como as conversas são como as cerejas...... olha perdi-me.

A década de setenta é sequência da de sessenta. Os homens começaram a vestir-se com cores alegres, as mulheres a fumar livremente, a usar mini-saia, o amor a ser livre, o rock and roll e as drogas numa proeminente e avassaladora invasão prenderam as mentes.

 

Enquanto isso descem avenida abaixo bandeiras cor de cravos. Soltam-se gritos de revolta e liberdade. As palavras ditas em prosa de tão coerente mensagem, soam a poesia. A poesia para mim é como a musica. Ouve-se em silêncio.

 

Ironia do destino. Surge no dicionário uma nova palavra. Retornado. Retornado segundo a explicação é aquele que regressa. É regressar. Recordo naquele tempo a qualidade de vida que os meus amigos regressados descreviam da terra donde vinham, onde no meu conhecimento só existia guerra e mato. Era assim que a entendia.

 

Ao lado da minha avó analfabeta lia os telegramas do meu primo Tó que estava na guerra. Não entendia. Como descreviam os regressados um País desenvolvido e belo, se não era isso que vinha escrito nas cartas e telegramas que eu lia e recebia da guerra. Não entendia, tinha onze anos e meio e não entendia. A minha mãe não me explicava porque era pecado, o meu pai explicava-me com o olhar. E eu entendia. Entendia aquele olhar moribundo de silêncio e prenhe de esperança.

 

Recordo a minha avó chorosa após cada leitura e trémula antes da mesma, na espera angustiada e cravada de lágrimas da pior noticia. Entendo hoje que cada carta por abrir significava morte e depois de aberta e lida significava vida, ou adiamento à morte. Havia qualquer coisa que eu afinal não entendia e não batia certo. Com o tempo entendi.

 

Haviam os que iam para morrer e os que iam para viver. A escolha não era aleatória. Era sequencial e mantinha um critério claro e simples. Ia-se em nome da pátria. Se se regressasse vinha-se em nome próprio. Havia sempre uma hipótese de fugir à guerra. O seminário. Se o escolhesse não era considerado desertor ou inimigo da Pátria. Pelo contrário, seria parte da moldagem cerebral e comum ao povo, a qual se distribuiria de cima de um altaneiro altar, numa homilia de corpo presente. Assistia-nos o direito a uma empregada, que seria a mãe dos nossos filhos.

 

Depois existiam os não vendidos ou rendidos. Os que desciam a avenida. Claro que me juntei aos das bandeiras vermelhas do proletariado, aos espoliados, aos que queriam mudar esta merda deste País, aos poetas, músicos e escritores. Estudei e trabalhei. Morri e ressuscitei. Antes renasci. Vivi a descoberta dos anos setenta, a música da década de oitenta. A paternidade na de noventa e, e fui respeitado no século e milénio seguinte. Foi este o meu caminho. Como tantos outros. Fi-lo.

 

Apertei-te a mão e fui empurrar-te no baloiço, depois de na relva deitados te ter falado da minha avó, e, e, como as conversas são como as cerejas...... olha perdi-me.

Lucas 7, 36 – 50

Chegava com aquele ar místico que o caracterizava. Toda a gente o conhecia sem ninguém o conhecer. Ninguém sabia donde vinha, se tinha família, o que fazia. Era uma pessoa gentil e com um bom ar. Entrava, saudava, bebia o café, desfolhava o jornal como que distraído, como se não lesse qualquer noticia ou assunto e saia com o aceno simpático. Não se demorava mais que o tempo necessário. Tinha um ar meio distraído de quem nada repara e tudo absorve. Usava umas roupas confortáveis e sóbrias, dando-lhe no entanto uma diferença que não se conseguia saber qual era. Alto, bem constituído era uma figura despretensiosa mas que não se conseguia, não reparar.

 

Uma manhã ainda mal nascida, na passagem de Setembro para Outubro, vieram uns homens e levaram-no. Eram da polícia certamente. Tudo muito rápido. No café nesse dia tudo se falava. Que era ladrão de bancos, que tinha morto uma mulher, terrorista, traficante. Já toda a gente tonta, opinava. Uns que achavam que a “coisa” não batia certa, outros eram da opinião que era um engano, que ele tinha boa cara, outros diziam que, quem vê caras não vê corações, outros ainda não tinham qualquer tipo de opinião e estavam-se borrifando para o acontecimento da manhã.

 

Mas o que é que aquele homem, com bom ar, não identificável, tinha feito ou seria?

 

Os dias somaram-se às noites e numa noite ele voltou. Trazia um filho nos braços e uma mulher no coração. Tinha renunciado. Numa terra distante e interior tinha sido padre. Tinha feito um filho a uma paroquiana. Loucos de amor numa noite na sacristia não resistiram à carne e fundiram as almas, os seus corpos, bocas, braços e coração. Era caso de polícia. Presentes ao juiz, decretou: “ausência de culpa terrena” e ordenou que fossem alvo de punição divinal. Presente ao enviado de deus na terra, julgou-o, expulsando-o e humilhando-o, conforme a desconformidade da fábula de Maria Madalena segundo o Evangelho.

 

 

Lucas 7, 36 – 50

 

36. Certo fariseu convidou Jesus para uma refeição em casa. Jesus entrou na casa do fariseu, e se pôs à mesa.
37. Apareceu então certa mulher, conhecida na cidade como pecadora. Ela, sabendo que Jesus estava à mesa na casa do fariseu, levou um frasco de alabastro com perfume.
38. A mulher se colocou por trás, chorando aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés. Em seguida, os enxugava com os cabelos, cobria-os de beijos, e os ungia com perfume.
39. Vendo isso, o fariseu que havia convidado Jesus ficou pensando: "Se esse homem fosse mesmo um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, porque ela é pecadora."
40. Jesus disse então ao fariseu: "Simão, tenho uma coisa para dizer a você." Simão respondeu: "Fala, mestre."
41". Certo credor tinha dois devedores. Um lhe devia quinhentas moedas de prata, e o outro lhe devia cinquenta.
42. Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?"
43. Simão respondeu: "Acho que é aquele a quem ele perdoou mais." Jesus lhe disse: "Você julgou certo."
44. Então Jesus voltou-se para a mulher e disse a Simão: "Está vendo esta mulher? Quando entrei em sua casa, você não me ofereceu água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas, e os enxugou com os cabelos.
45. Você não me deu o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés.
46. Você não derramou óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume.
47. Por essa razão, eu declaro a você: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor. Aquele a quem foi perdoado pouco, demonstra pouco amor."
48. E Jesus disse à mulher: "Seus pecados estão perdoados."
49. Então os convidados começaram a pensar: "Quem é esse que até perdoa pecados?"
50. Mas Jesus disse à mulher: "Sua fé salvou você. Vá em paz!"

Situação-fronteira

Quente quente aquela manhã em que o País ia a votos. A expressão “ir a votos” tem a mesma conotação que a expressão “ir a banhos”, especialmente porque ambas partem e chegam a um pressuposto comum. A agua. Pode até afirmar-se com alguma margem de segurança e confiança que se irá mais tarde ou mais cedo meter agua. O epílogo será um género de foz que desaguará na miséria do povo e no seu empobrecimento brutal. A nascente politica deste mar constitui-se na campanha eleitoral, feita de festas e jantaradas despropositadas e miúdos com cabelo arredondado e de cores garridas que vão gritando de dedos eriçados em V de vitória por um nome, apenas um nome. Um nome feito de cores. Os vermelhos são-no pela atracção física da cor, os laranjas, os amarelos e os verdes também. Poucos se importam pela direcção, todos se preocupam com o divertimento eleitoral.

 

Enquanto isso eu vejo as caravanas eleitorais passarem. Também se adapta a expressão, “os cães ladram e a caravana passa”, existe muito rebuliço à passagem e muita serenidade depois de vendida a festa dos votos e da sedução. Existe uma força política neste inventado País que pretende arrumar muito bem arrumadinhos, arrumadores, proxenetas, traficantes, gente de cor diferente, prostitutas, drogados, aleijados e pedintes. Arrumá-los com escreve o Alexandre O´Neill no soberbo texto sobre arrumação, que eu dito ao Morgado.

 

"Numa situação-fronteira, como esta, vale mais ter graça do que andar armado. Prazenteira como parece, esperará a mulher que a reboquem por mau estacionamento? O Largo das Duas Igrejas é um dos postos mais apropriados para quem vive de esmolas. Passa por aqui muita gente, muito boa e muito má consciência. A mulher está no seu posto. Como os painéis publicitários, os sinais de trânsito, etc. Que quer dela o agente da autoridade? Desalojá-la para que outro pobre, com mais direitos, venha ocupar o seu lugar? Afastá-la momentaneamente para que passe um nutrido grupo turístico? Nunca se saberá. A não ser indo lá e experimentando..."

 

Espera-se mais tarde ou mais cedo fazer a defesa nacional com uma linha de excluídos para barrar a entrada no nosso País, para quem vem ao engano, julgando ser este pequeno País solarengo um jardim à beira-mar plantado. Povoar a zona raiana de excluídos sociais seria uma medida politica adequado à explosão populacional e demográfica. Não sei se me povoariam por aqui ou por lá.

 

Sabes, disse eu ao velho amigo Morgado companheiro de assentamento no banco de jardim, maldizente convicto por ser bom observador e um ser intuitivo mais que informado. “As pessoas que pensam e têm massa critica também são incómodos, logo seremos candidatos à fronteira. À linha de divisão dos calados, dos não calados e cooperantes. Nós a final também levantámos os dedos em V à passagem da caravana. Não em V de vitória, mas em V de vergonha”, naquela manhã quente quente em que o País ia a votos. Sorrimos e fomos. Ele para a família eu para a minha amada solidão.

Céu III

Convidei-te para irmos ver o céu. Simplesmente olhá-lo. Olharmo-nos. Pensei e não te disse nada, mas talvez a olhar o céu te roubasse um beijo. Ou que tu me o oferecesses sem sequer ter que te o roubar. Imaginei-nos sentados numa pedra no alto da serra de Santa Marta a enchermo-nos de paisagem. Pensei e não te disse, que achei que me acharias vulgar ou doido.

 

Porque não tinha eu desejo de te levar a um restaurante elegante e caro?

 

Porque não desejo eu, deixar-te de ver para te mostrar?

 

Quando te penso sinto-te como mais um elemento da natureza, meio agreste e forte, incontrolável e surpreendente, como tal desejo ver o teu cabelo ao vento, os teus olhos ao luar, a tua voz desenhada no silêncio da noite imperturbável, como um quadro do Amadeo Sousa Cardoso. Lembro-me a noite em que conheci este artesão de livre pensamento, mentalmente evoluído. Desfolhei um livro dele numa casa especial, decorada com a singularidade e sensibilidade de uma artista. Também tinha Jorge Palma pintado numa parede com o poema “só por existir”.

 

Como explicar a forma como vejo o mundo se não o vejo real, a alguém com quem apenas quero ir olhar o céu e deixar brotar o que nem sei se vai brotar. Como explicar às pessoas que para se ser cientista ou investigador basta apenas ser um ser humano normal, com capacidade de trabalho e alguns domínios de técnicas científicas. Como explicar a alguém que a arte é um dom e não assiste regularmente seres humanos por aí além. Como explicar sensibilidades e vontades. Por vezes penso que o Picasso poderia ter sido um cientista sem nenhum tipo de problema, mas jamais um cientista poderia ter sido o Picasso.

 

Como posso explicar a quem não posso olhar? Como posso explicar a quem não consigo olhar o que vejo. Como posso explicar a quem olho e não vejo, se não sou visto e olhado.

 

Depois existem os que mesmo não olhando nos vêem e conversamos, rimos, choramos, viajamos, regressamos e sentimos saudades. Existem poucos por existência.

 

São estes e outros pensamentos que fecundam nos meus amigos do bairro. Naqueles que para além da famigerada conversa alheia e futebol, se perpetuam na esquina como se o mundo começasse e acabasse ali.

 

Ás vezes tenho saudades de mim. De ir ver o céu ao alto de Santa Marta.

 

E assim se despediu o Florindo e foi filosofando entre dentes naquele final de domingo quente.

Vivi dentro dos olhos que me viram

Mística aquela paisagem enfeitada de choupos e enfeitiçada por aquela mulher morena e esguia esquiva no olhar que soltou intensamente ao passar. Difícil entender aquele olhar. Altivo e doce, distante e quente, forte e suave, trémulo e seguro. Um simples olhar descrevia-me. Ofereceu-me e retirou-me uma fortuna com o olhar. Foi o início e o extremo. O mar e o deserto. A seca e o dilúvio. Soube-me a corpo na minha boca. Há quanto tempo não me sabia a corpo. Aquele doce agro contorcido pelo inicio de um espasmo que nunca o é. Os corpos contorcem-se prometendo espasmos que se adiam sem se realizarem. É esse início de loucura que me seduz e repele. Ver-te desaparecer no empredado sombreado pela noite de choupos, foi como sentir uma cascata descer do alto de uma colina e estatelar-se no lago, compondo uma neblina ensurdecedora que me varre o físico e me devolve a emoção. Liberto de cercas, não me sinto cercado de praças, bares e pessoas distraídas que não se vêem e não são vistas. A cobardia da auto-ilusão desvanece com a idade. O olhar cirúrgico de nada querer querendo, cresce com a idade.

 

Sempre tive duvidas. Não na visita da felicidade, mas na sua presença, no seu ficar. Os raios desfalecidos de luz trouxeram-me a doença. Sinto os últimos dias vindos. Sinto os outros. Já não sinto presença, já não sinto ausência. Já não sinto. Sinto apenas a doença que nem sequer galopa. Vai a trote por mim dentro. Maldito cavalo que não é alado. Aos poucos a infecção sobe por mim a cima, por mim adentro. A minha alma já não chora nem ri. Sei-me doente e as meiguices de ânimo que me metem debaixo da língua com um copo de água a seguir e um afago, para mim é adiamento. Não falo mas oiço. Eles não sabem que eu oiço. Preferia o contrário, não ouvir. Sempre ouvi durante a vida. Se pudesse escolher, preferia não ouvir que não falar. Calei. Agora sim calei-me de vez. Não incomodo, mas também não alegro quem me alegra a mim. Nem sequer sabiam que eu ouvia.

 

Os meus últimos dias aqui?

 

Passeio-os dentro das recordações. Recordar é voltar a viver de novo.

 

E vivi nos olhares dentro dos olhos que me viram e olharam. Vivi dentro dos olhos que vi.

Baile das arvores

Sentado num banco de pedra entre o cheiro das flores de Maio entretenho-me numa atitude masoquista de voyeurismo a observar a felicidade dos outros. Andava entretido com um livro que se chamava “Eu hei-de amar um a pedra” do Lobo Antunes. Revia-me na ausência de tempo. Era como se o passado continuasse a acontecer com o presente. Isento de tempo e carregado de um espaço combinado pelos amantes ali me encontrava eu, tentando fazer a ponte entre dois autores que admiro. Ele e o José Cardoso Pires. Era candidato interiormente a devorar literatura. Queria ter o dom de escrever, de fazer sentir o que sinto. Queria deformar o espelho. Não me quero ver assim naquele lado de mim. Diferente do que me via há vinte anos. Estou gordo e de cabelo prateado, até as minhas mãos engrossaram. Vale-me ainda a lembrança do que sinto e seguir uma linha de pensamento coerente com a merda que se passa à minha volta, descrita a cada telejornal.

 

Fazes-me falta amigo, cabrão do caraças que te casaste e ausentas-te. Faz-me falta ter-te e dividir os nossos pensamentos com o silêncio. Fazem-me falta estes dez anos atrás. Faz-me falta ouvir-te dizer que a minha cara fechada são só sorrisos. Faz-me falta ouvir-te dizer: “não vás ainda, fuma mais um cigarro”, era sensual essa tua expressão. Continuo sem beber e já não sei se fumo ou se os cigarros é que me fumam a mim. Sacana, partiste. A saudade continua em riste, em alta guarda, porque continuas sentado a meu lado a dizeres-me tudo o que me disseste e deixaste. Sei o que dirias em cada momento, é a ti que te recordo desvalorizando o valor das coisas, dos actos, dos livros, dos mendigos e das mulheres que víamos a passar aqui neste banco onde me continuo a sentar. A ti recordo-te valorizado. À dor ganha-se tolerância é bem verdade.

 

Lembras-te de falarmos dos carros feios, das ruas feias, das casas novas feias, cheias de traços de um novo-riquismo obsoleto. Olha o contrário disso. Vê. Ouve.

 

O vento fez uma saia de folhas caídas à volta do tronco de uma árvore. Transformou-a em bailarina. As outras árvores abraçaram-se e organizam um baile. O baile das arvores. Nunca visto. Imagina as árvores abraçadas a dançarem com umas saias de bailarina feitas de folhas vermelho ameixa. O jardim engalanado e uma orquestra a tocar no coreto. As árvores em passos elegantes e em vénia a esticarem a mão num convite sensual dirigido a outra árvore. As árvores a beijarem-se.

 

É nestas alturas que sei que me dirias “ a tua cabeça não pára, as coisas que tu te lembras” e sorrias como se nada importante se tivesse passado. Era assim quando me mostravas os teus poemas e os teus escritos. Eram de luz, é de luz, és luz, juntos somos luz.

Aos retalhos de vida

Acordei e olhei para a janela que tinha dormido comigo aberta naquela água furtada alugada, onde eu sentia o passear das osgas e onde cresciam nas telhas ervas que secavam no verão. Entrou-me o cheiro a roupa lavada e seca que é diferente do cheiro de roupa por secar. Tinha ido da aldeia para a cidade e vivia no quarto de uma velha sábia e sabida senhora viúva há largos anos. A casa estava cheia de homens. Bem sei que eram hóspedes, mas não deixavam de ser homens e com homens ela entendia-se bem, para além de treinar a ausência do seu. Três estudantes e três tropas, dois cabos e um graduado, mais alguns viajantes que ficavam de passagem, embora certinhos eram passageiros. Cheirava a creolina ás terças-feiras, dia de desinfecção geral. Era certo o meu estômago dar duas voltas ao ranger de cada degrau de madeira envelhecida e estreito até ao corredor que me empurrava para o quarto. Roufenho um rádio na cozinha comum ditava as notícias. Era um rádio velho e com a gordura normal de se viver numa cozinha. As torneiras da casa de banho eram autênticas obras de arte em bronze. Recordo-as até hoje. Dava-me com o Hernâni, um velho meio louco, que tinha tido em jovem três mulheres ao Intendente que o sustentavam. Depois deixou-se disso e vendia relógios roubados e tabaco de contrabando. Ainda hoje tinha uns esquemas. O que me ligava a ele foi a sua passagem pelo Júlio de Matos ainda antes do 25 de Abril. Historia de miséria e encantamento que ele me contava. Falou-me do médico mais demente que ele. Das viagens alucinogénicas provocada pelos fármacos. Da enfermeira que se tornou sua companheira. Do regresso ao mundo e da sua incapacidade social. Dos filhos que sabia ter e nunca viu, da sua irmã que vê anualmente na sexta-feira de cinzas no cemitério do Alto de São João à Curraleira, junto à campa da sua mãe. Falou-me do rio Tejo e dos domingos de final de tarde no jardim da torre de Belém e das carteiras gamadas às portas de Santo Antão. Não me cansava o seu cansaço. Desfazia a barba cuidadosamente de manhã e cantarolava. Gostava dos Beatles e da Amália, do bairro alto e de Alfama. Um dia comentou comigo um crime de sangue que tinha executado e calculado friamente. Um homem que tinha usado a sua mulher e não tinha pago. Marcou-o, e, durante vinte sete noites ficou na esquina à espera do reencontro. Um dia ao vê-lo deixou-o subir com ela e no acto espetou-lhe uma faca nas costas e rasgou-o, desceu apressado e ficou aliviado. O Hernâni tinha vida e o mundo das avenidas.

Flor não que ela é Rosa

...”O Ricardo tinha-se evadido de Caxias. Fala-se à boca pequena que tinha estado na casa do Padre, que este lhe tinha dado guarida algumas noites, antes que ele conseguisse com a ajuda do pessoal do partido sair do País. Na época a JOC – Juventude Operária Católica tinha ramificações com uma filosofia crescente e humanitária e ás escondidas dos enviados de deus à terra arranjavam uns “caldinhos”.

 

A mim tinha-me parecido ter o vislumbre do Ricardo numa noite semeada de sombra e frio. Tinha-lhe reconhecido o andar. O bafo frio da respiração. Tinha-lhe visto os olhos fumegantes de cansaço e a luz presente gritando em plenos pulmões, o caminho da liberdade. Escondido, ainda passou na mãe e beijou-a. Pediu-lhe que não chorasse e perdão. Agradeceu-lhe tudo, especialmente os livros que o tinham ensinado a não ter medo, nesse discernimento entre o certo e errado, o pecado e a absolvição. Deixou um segredo. Disse-lhe que o Sá, o canalizador, era bufo e o Joaquim do forno também. Eram da PIDE e tinham mandado engaveta-lo por pouco mais, do que ele saber os direitos que o ser humano encerra. Não podia ter sido mais que isso, porque mais que isso ele nunca fizera. Estava limpo de alma e liberto de traição no coração.

 

Na madrugada seguinte os cães e mais de vinte homens rebuscaram a igreja e casa da mãe do Ricardo. Nem o padre nem a mãe num só momento vacilaram com o olhar. As palavras foram nenhumas, e, todos num rosnar colectivo partiram por montes e vales, numa desenfreada caçada que seria tardia.

 

Há hora do sol a pique, o filho do Boticário entregava um bilhete à Rosa que dizia:

 

Atraquei.

Trouxe comigo já, o dia do regresso.

Sei que voltarei da mesma forma livre como parti,

Então já deformada a aldeia onde o pão cheira fumo, será nossa.

Dos que nos calamos para nos pouparmos,

Dos que aprendemos a beijar, com o olhar e o coração.

Voltarei com as palavras que jamais serão prescritas ou proibidas,

Voltarei sem ser pela noite calada,

Pelas sombras,

Pelo medo,

Pela ausência de mim.

Voltarei inteiro mãe,

Sobrevive até ao nosso próximo abraço.

Que a guerra terá tréguas e a terra será de quem a trabalha,

E o pão de quem o semeia,

E as palavras!

As palavras serão de todos nós,

Os que sem falarmos,

Presos ficamos nelas.

Vive mãe,

Vive até ao nosso próximo abraço,

Eu estou bem,

Estou com os amigos,

Não os da luta,

Estou com os arautos da paz,

Perseguidores convictos da igualdade.

Beijo-te mãe, a alma com o coração abraçado em ti...”

 

A Rosa confessou-se e partiu nessa noite. Foi em flor em busca de um cravo que numa madrugada de Abril se haveria de plantar....

Flanela

A flanela grossa aos quadrados fortes embrulha-lhe a pele. Não entra o frio não entra o calor. Não faz a barba desde que lhe morreu a filha dentro do coração e foi avô. Cuida da neta como se fosse a filha, que a filha vadia ficou grávida de quinze anos. No areal a coser as redes sentado com os amigos de uma vida não se fala do assunto. A dor do Manuel Pexim é respeitada com o silêncio sobre o assunto. O Manuel nos momentos mais dolorosos não aguenta e sente o sabor do sal nos seus lábios entrar-lhe alma adentro em lágrimas teimadas de serem escondidas. Ao final do dia, a Rosa, a sua mulher junta-se-lhe com a neta Simone que não pára de encantar. O Manuel, imóvel e sem expressão no rosto, sorri pelos olhos fora. É o momento dele. Tem saudades da filha que já perdoou, mas não lhe consegue dizer.

 

Queria matar o homem ainda criança que abusou da sua menina, cortá-lo aos bocados e mandá-lo com a maré. Nunca falou com ninguém sobre esse mar de dor. É um homem e um homem só tem que fazer, o que tem que ser feito. Deitou a sua neta na sombra do barco que o levou ao mar noites somadas de anos a fio. Admira a sua luz e vê nela a sua menina. Tomou uma decisão.

 

Procurou a sua filha e devolveu-lhe o olhar. Depois de mais de três anos voltou a chamar-lhe pelo nome e sentou-a à sua mesa. Devolveu-lhe a sua cama. Abraçou-a. Choraram abraçados. O Manuel queria voltar a ter o mar e o sorriso do sol quando acordasse. Queria voltar a ter a Margarida no seu jardim.

 

Acordou na madrugada seguinte e foi pela praia fora chorar. Agora, já podia chorar. Tinha feito o que tinha que ser feito. Como um homem. Tal como a flanela que o guardava do frio e do calor, as suas lágrimas eram de tristeza transformada em alegria. Tinha ganho no abrir de mão. Podia sentir o frio da madrugada e a cacimba semear de vida o seu lar. O seu lar existia novamente. Sentia-se leve de perdão, e tinha aceite a tempestade e a maré vaza de solidão. Tinha o peito aberto de chagas saradas. Caminhava de chinelos na mão, enterrando cada passo na areia com força, e, em cada passada deixava enterrado um pensamento que não queria suportar. Passo após passo guardou um atrás de outro e não parou de caminhar. Nunca mais parou.