Neste País constroem-se estádios de futebol que ninguém usa e as escolas que se usam fecham. O resultado, as analises e fórmulas matemáticas ou estatísticas do sucesso do investimento ou do “desucesso” da deseducação a olho nu se vê. É atroz e pecaminoso. Perverso e execrável.
Queima-me este encontro das nossas bocas. A presença feita de nós. Encontro adiado, depois prometido. Percorrido e desejado. Este mar cavalgado de ondas em mim, salgado. Tempestade incendiada. Saudade. Mil estrelas no céu cadente riscado iluminam o teu corpo. Uma mesa de pedra quente espera os nossos corpos de madrugada. Ali mesmo ao luar os nossos corpos contorcem-se num desejo tocado e beijado. Transpiro de ti. Trago o teu cheiro que me adormece e afaga. Mil duendes e feiticeiros abençoam-nos. Beijo-te a alma com o coração, dizes-me estranho nas estranhas. Abraço-te. Parto acompanhado pela música que ouvimos junto ao lago adormecido desperto de nós. O vento quente da noite transforma o bailado num palco de árvores incerto. Corpos dobrados numa dança cadente embalados pela mãe natureza sem pensamento ou razão, animalescamente suaves e comprometidos pelo êxtase. Pinto este quadro inventado como se a tela fosse a vida, as minhas mãos um pincel, e a essência as cores da inspiração. Percorre-me as veias o fervor de vida. Uma intensa vontade de me imolar numa floresta densa semeada de uma única palavra caustica, precisa e suave. A palavra segredo descreve a palavra não dita. A palavra abraço descreve muitas palavras desnecessárias de se dizerem.
Injusto este mundo antagónico. As mulheres olham de esguelha e muitas vezes de frente. O sexo mistura-se com a religião e as palavras orientadas pelo caminho sedução. Cristo e anticristo são próximos e a verdade só existe e é valorizada, porque a mentira é proeminente. Quem jamais deveria mentir não sabe o que é verdade. A verdade são sete letras como os pecados capitais.
O pecado é transgressão. É violação se outros seres se encarcerarem. A prisão é a liberdade que se dá a quem já não aguenta viver. Viver implica ser livre numa prisão. Prisões não são grades e fechaduras barulhentas ao trancar. Prisão é a mentira vivida como verdade. São discursos bonançosos, daqueles que ao ler penso
- “ Quem te ler não te leva preso”, e logo a seguir penso:
- “ Melhor levasse, seria em nome da liberdade própria e a libertação de quem se prende sem decidir”.
Liberdade é abrir mão e sofrer porque se acredita no renascimento da alma. O espírito sôfrego do ego é mentiroso, a transformação da mentira cognomina-se de verdade. São estes conceitos sentidos de um sem sentido, que me vou despertando e entendendo a natureza humana. A proximidade do desencontro e o desencontro da adjacência.
Basta de água fria e benta. De orações e caminhos, de vales, serras e planícies, e histórias por entender mais do que encantar. Chega de falar do que não se sabe. Não fala de fome quem nunca a sentiu. De liberdade quem nunca foi escravizado. De democracia quem sempre esteve do outro lado da barricada. De trabalhadores quem sempre foi patrão. De demência quem sempre foi sane. De homens e não separe a imagem do próprio pai. De mares e oceanos, da Europa e da América. Do futuro e do passado, quando na verdade o que existe é o presente. Chega de demagogia. Chega, chega, chega. Há dias em que ainda sinto, não me estraguem o sonho de sentir. Sonhar eleva-me, vou mas é ouvir o José Mário Branco ele entende-me, não adianta querer ser entendido. Quando se é, sente-se.
Três cafés depois e um dedal de conversa, mais benévolo e transpirado, montei a burra e fui verde fora pelo pinhal do paul. O cheiro forte lembrou-me uma quinta-feira da ascensão, quarenta dias depois do domingo de Páscoa, onde fiz amor entre as ervas altas. Não sei se gerei uma filha ali. Sei que a gerei ao ar livre.
O rio, maior à frente cobre o seixo polido onde os peixes habitam. Os homens de chapéu de aba larga e mãos de terra, têm na cor da tez o encanto de um olhar profundo e desinteressado. Misturam-se os pescadores avieiros que trocaram o mar duro e invernoso, pela frieza do rio onde alimentam os seus filhos. A lezíria parada tem um movimento esplendoroso. As mulheres cantam e trabalham, enquanto pelo mesmo motivo os homens bebem para suportar o senhor feudal, que sentado no alto do seu olhar vigiante e intimidador, massacra e explora, a morte como a Catarina.
Os filhos de uns e de outros tem infâncias iguais e destinos diferentes, e sem que ninguém saiba disso pelo vislumbre, todos o prevêem. As avós, mulheres viúvas de negro, carregam o gado e cuidam da lenha, que o Inverno embora ainda seja verão, não tarda ser avistado. Virá numa madrugada com o frio, e embora ainda venha em terras de França, ao raiar da manhã estará na Azinhaga como Saramago previu.
Noite, o vento batia quente em direcção aos acalorados acordes que me chamavam. Cheguei e sentei-me na relva convidativa. As cadeiras brancas estavam ocupadas pela agradabilidade da noite. Disse para o meu amigo: “daqui a meia dúzia de cantigas estarão vagas mais de metade”. E assim foi.
O João Peste e os amigos trataram selectivamente do pessoal. Até os “betos” malucos que saltam por dá cá aquela palha, ao som de quase toda a batida, não resistiram à força da mensagem traduzida em acordes e conteúdo das palavras. Na verdade a musica que faz pensar não vende, não rende uma deslocação, não aliena da realidade. E assim regressei aos anos oitenta e à genuinidade das palavras abraçadas pela música dos Pop Dell´Arte, e tive saudades.
Melancolicamente vieram-me à cabeça duas ou três pessoas, curiosamente já não terrenas, mas vivas em mim. Comparei as noites de outrora e as de hoje. Havia lá sandalinhas douradas de tacão agulha na época. Não havia. Havia era ténis e pó, e cheiro adocicado no ar, mais olhar iluminados e sossegados. Havia pessoas sentadas em roda a conversarem. Bela noite de musica recordada e actualizada na sua intemporalidade.
Entrou em mim uma sofreguidão fresca e ávida, soube-me estar contigo amigo.
Deslocou-se o olhar que me afagou. Reconstruído pouso as minhas mãos nos joelhos e sento-me no jardim. No banco verde de ripas vejo as pessoas passar. Olho cada passada como se fossem minhas e engendro o caminho que fazem. Tenho fome. Fazer uma refeição só para mim é um acto de maturidade, é como se não fizesse sentido, pensar, preparar, ferver com amor, pôr talher e prato, e degustar-me. É como se o simples facto de me nutrir se tornasse num acto reconstrutivo de destruição criativa. Fazer para voltar a fazer, sempre igual e rotineiro, apenas uma necessidade básica à naturalidade da sobrevivência humana. É este conceito de necessidade básica que me ajuda a compreender o entendimento de necessidade básica.
Verifico que não divido as minhas necessidades fisiológicas, higiénicas, de reconhecimento e segurança com ninguém, então porque hei-de eu achar que a alimentação se diferencia das outras?
Concluo que é cultural, que alimentar-me não é mais que uma necessidade básica, porque cresci a achar que não o era. Mais uma inverdade com que cresci. Mereço sim e faz sentido cada banquete que sozinho faço. Um banquete não é igualmente o conceito com que eu cresci. Os meus banquetes foram deslocados do olhar que me afagou. Um banquete é conversas partilhadas, festins de palavras, olhares doces, corpos balançados, sorrisos cúmplices de afagos trocados em dedos entrelaçados.