Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cardilium

Cardilium

Boas Festas

 

Acho que o mundo está feito para mudar os outros. Está apinhado de emissão de juízos de valor. “não deves ser assim”, “não podes fazer isto” ou “não é bom fazer aquilo”. Fazem-no de uma forma sublime, hoje em dia. Fazem-nos os psicoterapeutas, os psicanalistas, os psicólogos, os psiquiatras e uns mais não sei quantos, não sei o quê, psico qualquer coisa. Fazem-nos “os média”, os nossos amigos, mulheres, namoradas e amantes. Fazem-no o governo da nação, a religião, as raças, os poetas e os cantores. Fazem-no em discurso directo e indirecto. Com frontalidade e disfarçado. Com conceitos éticos, normas, leis e regras, sem moral e com. Pior, fazem-no por comparação com um discurso tipo exemplo do: - “eu cá faço desta e daquela maneira, acho que devias…….” Não há pachorra, a liberdade individual cabe a cada um decidir. Mais, a liberdade termina onde começa a do próximo. Ser certinho não é sinónimo de fazer bem, ou mal. Cada qual com a sua opinião, cada um com o seu conceito. O que serve a alguém, pode não servir para mim e vice-versa. Deixem-se de opiniões, na cama que farei, nela me hei-de deitar. Eu e todos. Diz o saber empírico, “cada qual é como cada um”! ……….

Solta-me !...

 

Solta-me!
Solta-me das amarras,
Palavras são liberdade.
 
Solta-me dos julgamentos,
As palavras não se avaliam,
Deixa-me meu bem-querer neste barco velejar.
 
Sem rota,
Sem direcção,
Solta-me nas madrugadas.
 
Deixa-me ancorar quando o vento amainar,
Não dispas de mim as palavras,
Peço a deus que não me seque de vocábulos.
 
Amo-as,
Prende-me meu bem-querer por não me entenderes,
Prende-me por não leres o que escrevo.
 
As palavras são pedaços de letras amontoadas,
Aglomeradas de vida,
Destino.
 
Musicalidade,
Roupagem,
E direcção descontrolada.
 
Seca a tua cara das palavras que não te escrevo,
Sorri das palavras que te digo.
Meu bem-querer,
 
As palavras são amor mais que ódio,
São querer, mais do que bem-querer,
São amor, amor, amor.
 

Espera-me !...

 

Espera-me. Espera-me por detrás do mosteiro velho, junto ás ruínas onde nos beijámos pela primeira vez. Lembras-te? Espera-me junto ao silvado de amoras frescas que me picaram do teu sangue. Até hoje sangro. Não saro esta ferida de amor. Espera-me com esse desejo alucinado, de mãos suadas e frias e o coração descompassado. Quando eu chegar, molharemos os pés na ribeira embelezada de seixos e rebolaremos desordenadamente os dois na relva da encosta, debaixo da ponte. Obra feita por Deus aquele naco do mundo. Espera-me, não te vás de mim, assim sem mim. Quando os ponteiros do relógio da torre que desabou se cruzarem chegarei, chegarei a tempo, o tempo é nosso. Dançaremos sob as nuvens e voaremos de mãos dadas por aí, sem destino ou direcção. Iremos até à beira Tejo e falaremos aos peixes do rio sem nos olharmos. Depois voltamo-nos um para o outro e abraçar-nos-emos sem tempo, como se o mundo fosse desabitado e um lugar deserto e único, só nosso. Enlaçaremos no tempo como se ele fosse uma estação, uma noite ou uma vida. Assim abraçados adormeceremos sem prantos ou questões, sob a hipnótica sedução de nos sentirmos unos. Acordei de um sonho transpirado, vivo e escrito.

Conhecimento

 

No fundo dos teus olhos existe conhecimento, existe vida. O teu olhar vê e lê o que de mais profundo há em mim. No fundo dos teus olhos há pranto e encanto, há saber e querer. No fundo dos teus olhos que são os meus, existem os meus que são teus. Existem intermináveis conversas feitas apenas e tão-somente de palavras sem som ou expressão, existe uma cúmplice e tremenda alegoria, um bailado e uma poesia. Existe uma saudade arrebatada de falta e destituída de preconceito, desamarrada no cais exonerado. No fundo dos teus olhos, de soslaio empreendo uma obra que irá sempre ser e ficar inacabada. Do fundo dos teus olhos prendes-me e pedes-me. Do fundo dos teus olhos existe presença e coerência, ritmo e melodia, uma forma erudita de me saber e de me entender. Os teus olhos mentem quando não me queres, e brilham sorrisos quando me recebes. Os teus olhos vagueiam pela luz que deles emanam caminho, vertem agua quando no escuro adormeces. Os teus olhos são da cor do arco-íris e mudam em cada forma de sentir. Os teus olhos são safiras que sentem e permutam cada cor indescritível de adjectivo. Os teus olhos são o meu pecado e a minha penitência. Nós somos a tragicomédia dos sentires. Somos voluptuosidade ancestral neste mar contemporâneo.

A noite é um lago

 

A noite é um lago.
 
Meu amor, quando eu morrer veste encarnado e vermelho no teu luto. Pede para me queimarem bem queimado. Faz as minhas cinzas voar ao vento de um morro voltado ao mar. Quando ele vier na tua direção e anunciar o seu rebentar na rocha onde estiveres, desfaz-te delas. Acena ao céu e agradece por mim a viagem.
 
Meu amor, quando eu morrer dança nessa noite ao som da música que ouvimos e gostamos. Acena à manha e bebe o café que beberíamos. Celebra-me com um poema que tenha escrito, escolhe-o. Abraça gente. Abraça as pessoas de quem sabes que gosto, por mim. Adorna-te do mais esbelto sorriso que conseguires nessa tua boca beijada de cada vez que fizemos Amor. Passeia-te pelos campos cheirosos de amoras e toca o nevoeiro pousado nas madrugadas dos prados verdes, abraçados e pungentes.
 
Meu Amor guarda umas quantas gotas de orvalho numa caixinha zincada e oferece-a a um qualquer citadino distraído com a vida, sem dizeres coisa nenhuma ou nenhuma palavra. Apanha uma flor rara e põe no peito, como um colar inventado
 
Meu amor dorme depois nos lençóis com o nosso cheiro, e, aí podes chorar um pouco de saudade, nunca de perda, porque jamais me perderás.
 
Meu Amor recebe este beijo de vento, mar, terra, nevoeiro e cinza. Eternamente.

Os teus olhos

 

Olho para dentro dos teus olhos
E vejo a minha vida,
Olho para dentro da vida
E vejo os meus olhos em ti.
 
Olho para as tuas mãos
E vejo o teu coração,
Olho para os teus olhos
E vejo minha, a paixão.
 
Olho só por olhar
E fico enfeitiçado,
Não sei a cor dos teus olhos
Mas neles leio o fado.
 
O fado é meu amante
Os teus olhos a perdição,
Leio, canto e sinto
Amor nesta canção.
 
E vejo o teu caminhar
Descer abaixo pela rua,
Menina de peito aberto
Que carregas a alma nua.
 
E sem saber ler o que vejo
Faço uma rima que não dança,
Por ti mulher ausente
Tens no cabelo uma trança.
 
E esta noite sonhei
Vivi uma grande ilusão,
Sonhei que eras a chuva
E as poças o coração.

Ufaaaaaaaaa!.......

 

Uma sala fria bordada a azulejaria barroca. Tecto alto modernizado com um imponente ar condicionado. O reinado de D. João V correspondeu a uma importante renovação decorativa dos espaços do Colégio do Espírito Santo, expressa nos azulejos, mas também nas cátedras, no tecto da Biblioteca e na fachada da Sala dos Actos da Universidade de Évora. Linda, mas por si só intimidadora.
 
Se juntarmos ao facto, uns senhores de ar sisudo e julgativo que nos ouvem com os olhos, e nos dilaceram com um ar distante, não será nunca fácil iniciar um discurso representativo, apoiado pelas novas tecnologias, que os convençam do nosso comprometimento e competência.
 
Os minutos iniciais parecem horas. A nossa voz não parece ser a nossa voz. De repente, de olhar vazio e fixo primeiramente em nada, e depois nuns olhos sem expressão, a voz fica reconhecida e parece nossa. As mãos tomam forma e ganham gestos apropriadas. O árduo trabalho apresentado num silêncio ruidoso de expressão, dói.
 
Minutos depois silencio. Um sorriso acenado de cabeça. Mais uns minutos e umas palavras retemperadoras delineadas por outro sorriso de apreciação estalam no tecto. Os azulejos ganham vida, movimento e sentido.
 
Afinal os olhos têm expressão e os lábios são sábios e incisivos. Como remate um desejado voto de confiança e uns parabéns envergonhados. Um sentido e desejado ânimo de confiança e bom trabalho. A felicidade ribomba vinda parece de Espanha. Estoira em sintonia uma alegria sentida de dever cumprido, ou meio dever cumprido. Tenho alucinações. Vejo o meu pai e filha ali ao meu lado. Vejo a espreitar de um azulejo alguma pessoa a que dei um título. Abraçarei brevemente.
 
Foi assim no Alentejo, pela manha de 19 de Dezembro na sala dos Actos do Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora.
 
Ufaaaaaaaaa!.......

Por mim, sim !....

 

Mágoa é o acto pressuposto e resultante de acto de entristecer pela tristeza causada e ofendida, o acto de melindrar ou ofender, de pisar ou contristar. Diferente de magoar, uma figura por si só feita de tristeza ou desgosto, dor de alma, amargura ou condolência. Ambas são explícitas e com uma obvia ligação, diferenciada apenas no acto que causa ou é causada. O detonante não sendo igual atinge o mesmo fim. Simples palavras, um acto, ou um trágico acidente ou perda, fazem sentir a mágoa de magoado, no físico e no sensorial. A dor não se mede ou pesa. A forma de lidar com ela em nenhum caso ou todos, poderá ser igual. Os sentimentos que o fazem sentir são diferenciados de igualdade. Neste domínio ninguém pode avaliar ninguém e muito menos as causas ou consequências serão identificáveis no mesmo sujeito. Entra-se então no campo ético, cultural e comportamental. As necessidades básicas e o bem-estar necessário a cada individuo ou objecto. A felicidade ou infelicidade, o choro, o riso, a euforia ou depressão, contudo saber-se-á pelo espelho da alma o estado de espírito inerente a casa pessoa como ser individual e merecedora de ser amado e respeitado. Exclui-se raça, credo ou sexo. Por tudo isto e muito mais, pessoas que se amem do mesmo sexo têm a minha aprovação em poderem de facto unir-se sem exclusão, pelo matrimónio. Tanta conversa para nada. Felicidades e saúde são os meus votos a quem se ama.

Resultado liquido

 

A névoa tem candeeiros de luz amarela exaltados num manso soluçar. O jardim sossegado, deixa pousar-lhe a transformação gasosa da água do rio e do frio, aquietar-se na relva tratada, verdejante e clara. O bar de madeira tem um ar quente e confortável. As sombras reflectem os passos permitidos pela lua. É uma noite já adiantada de noite. Imóvel, não há olhares. Fumegam brancas as chaminés das lareiras que enfeitam o ar de um saboroso perfume com aroma a fumo invernoso. As palavras dilaceram-se em pensamentos coadjuvados de sentimentos. A passarada enrola-se nas asas feitas de calor. A calçada coberta de uma humidade intocável brilha à obra do artista que desenhou um cavalo de restos de ferro. As quintas sobranceiras descansam na noite desaparecida de gente. O rádio emite uns sons imperceptíveis mas coloridos. Rasgado de pensamentos e promessas por fazer, caminho em direcção a casa que aquecida me espera. O silêncio nem sempre é de ouro e a lua não é toda de prata. Levo as mãos ao meu peito esquerdo onde sinto a vida, ruidosa e baralhada. A noite avança em direcção ao dia que já nasce ali mesmo distante. Numa longínqua vontade de ser indivisa, em vagas vagueio-me.

Palavra de enxurrada

 

Traço riscado com o teu nome,
Num sorriso distante.
 
Madrugada avassaladora,
Amor presente.
 
Homens que ferem os homens,
Irmãos que não o são.
 
Abril criou os cravos,
Desalentados entrementes.
 
Desplantadas ilusões,
Cravadas de realidade.
 
Sacro santo popular,
Liberdade protelada.
 
Palavra riscada pelo teu nome,
Lavada.
 
Levada numa enxurrada,
De lama e miséria forçada.
 
Em Novembro,
Não no Abril, das aguas mil.