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Cardilium

Cardilium

Eu com os outros

Sinto tempestade na luz escassa da manhã. Experimento uma invasão descendente do medo. Não é primogénito. Não vejo nisso nem erro, nem acerto, é assim, porque é assim. Tenho uma guerra por travar, um momento medroso por desbravar, um sentir procrastinado para habitar. Tudo está claro, mas a angústia acomoda-se cintilante. Uma ordem formada em desalinho prende o que sinto. Rebato esta falta de liberdade e descubro a consciência da frustração. Sou libertado de seguida, não me quero habitado neste momento infinito e enclausurado. Não vejo. A luzência cega-me. Encandeia-me este forte desmesurado da minha essência castra. Esta raiva indolor abafa-me. Faz-me desejar ser outra fracção minha, de uma outra existência, que não esta. Já não sinto mãe, de ti, o teu sabor. O cheiro do fumo que se desenhava no tacho de comida ao lume, já não me cheira. O rádio verde roufenho que herdei, substituí-o por uma alta-fidelidade. É como se outra vida em mim existisse, e, essa de tão longínqua estar, na minha alma se detém em gemidos de angústia, saudade, e esculpida de um cinzento que tornou essa época de mim, fria, descristalizada de conceito e desumanizada de solidão. A solidão mais massacrante não é: eu comigo. Sou eu com os outros.