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Cardilium

Cardilium

Contrabandista !...

O rosto enrugado pela dureza do frio esbatia-se na sombra do seu corpo ao passar. As mãos fortes enfeitadas de dedos grossos eram seguras. Passou de assalto anos a fio, as madrugadas de Espanha para Portugal, curvado pelo peso do medo de ser preso. A morte escondia-se diariamente entre os ribeiros e as pedras que tão bem conhecia. Os seus olhos desconfiavam de cada movimento á sua volta. O olharento vigor onde depositava o seu olhar, era trocado pelo ar frio e distante com que se habitou a ver, sem olhar. Sabia bem distinguir o cheiro do pão que lhe conduzia a viagem. De sete horas nocturnas eram feitos os seus dias. A polícia ainda hoje lhe mete nojo. Um nojo miserável. Nojo pelos tiros que não o alcançaram. Pelos roubos e pelas prisões que lhe prometeram, em nome da liberdade. Passava café aos quilómetros, entre o frio espesso e as pedras duras do caminho. Calculava que cada pedra tinha mil anos. A fome da refeição que o aguardava, fazia-lhe cada passo mais firme que o anterior. As encomendas eram feitas numa surdina temerosa. A noite de 24 de Dezembro era boa para a passagem. Não tinha rota. Seguia sempre o roteiro normal do silêncio. A sua cama aquecida esperava-o sem perguntas, espreitando em cada sombra o ruído. Era contrabandista dizia-se. Contrabandeava sonhos. Sonhos de uma vida melhor….o contranbandista.