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Cardilium

Cardilium

Primeiro de Novembro, de todos os anos a mesma coisa.

Existe o luto que se faz sem ter que se fazer, e há os que necessariamente são feitos, queira-se ou não se queira. Lutos por pessoas, pela vida, por momentos. Lutos proibidos feitos em silêncio. Lutos patológicos e psicossomáticos, onde as dores de verdade se transformam em dores que não o eram. Lutos homofóbicos, nas suas mais cruéis e reais vertentes. Lutos de pós-vida e pré-morte. Como devem agonizar os cuidantes dos lutos, que colmatam as dores com carinho e tiques de feitio e personalidade. Diante da morte, a religião retira ou diminui a ansiedade do fim da estação. Transforma-a no conceito de passagem. Afinal a fé, é um tapa-buracos, ou não é um tapa-buracos, mas sim um ajustamento vanglorioso, que remenda as essências espirituais, que dá alguma coerência temporal. As técnicas crescem e desenvolvem-se em redor da morte, da vida, da aceitação, da dor e dos lutos. Depois, de apêndice em apêndice, cada um sabe de si. As artes evoluem, mas não suprem a humanidade latente, que escasseia onde devia abundar. As melhores palavras de conforto são ditas em voz alta e estridente, no silêncio de um abraço. O mutismo da presença da espiritualidade espera pela etapa seguinte pacientemente. A vida é inevitavelmente a morte. É por aí que os sinos dobram.

 

O que é um homem morto? Não será uma a notícia declarada à nascença?

 

Mãe, nesse dia um de Novembro em que toda a gente vai, eu não vou. Já devias calcular isso, presumo eu. A mim não me leves flores ou limpes o meu jazigo. Já não é preciso, já não estou, antes em vida pronunciasses o meu nome. Estava cheio, o sítio que cobre de terra os mortos. Tinha flores. Cá fora como oportunidade, lá dentro como competição. A mim não me apanham lá concerteza, vou caber no sítio muito pequenino, e vou voar por aí, depois de me encontrar com o rio. Não fui, não vou, e não irei fazer esse papel que me agonia. Aproveitarei antes, para dizer em vida os nomes levantados do chão de quem gosto, mesmo desgostado. É por aí que dobram os sinos, já te disse. Vai com o primo que tem jeito para a coisa, ou com quem tu quiseres, mas eu não vou. Eu faço os meus lutos e não tenho que os pronunciar, habituei-me a darem e a não darem pela minha presença ou falta. Para mim vai dar ao mesmo. O que vale mesmo, são as broas que a mulher do “Toinho Júlio”faz.

 

Primeiro de Novembro, de todos os anos a mesma coisa, para nao dizer a mesma merda.