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Cardilium

Cardilium

Seria um olhar suficiente para te lembrar...

A maior estrela cadente que vi foi a teu lado. Era verão. Foi no nosso ultimo verão. Madrugada era o tempo que fazia, mais o teu calor em debandada. O sul ficava a norte. De África acenava-nos o vento, que trazia o teu cheiro forte, novo, e desconhecido dos teus seios. Trazia o teu perfumado e frequentado ar cândido. Adormentada, a tua vida emprestava sentido à minha. Desejei que o Alentejo não acabasse nunca mais, e que Trás-os-Montes existisse para sempre no meu leito. Mas tudo tem um fim. Tudo tem um, e o momento. A nossa hora mesmo existindo, acabou. São as memórias de futuro que me acorrentam aqui e não me deixam seguir a minha circum-navegação. Não dá, não consigo, já não sinto prazer senão comigo, e só às vezes. Cansado, não me quero deixar de sentir cansado. Das oito às vinte quatro vão dezasseis, sobra pouco, sinto muito. Alucino e vejo-te ao dobrar de cada esquina, no decorrer de cada paisagem, em cada verso que invento, em cada serra que traço, em todos os acordes de uma pauta de jazz, o teu abraço sufoca-me de distância. Amei pouco, tentei muito, errei bastante e acertei uma. Não sabendo de ti ou de mim, sinto que ambos sabemos que a vida foi um momento. O que nunca te disse escrevo, e o que escrevo no silêncio, seria um olhar suficiente para te lembrar.