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Cardilium

Cardilium

Ó Mar !

Cansadas as gaivotas suspendem-se. O vento regressa de olhar no mar. Mar aberto semeado de sal. Mar do mundo. Mundo de mar. O burburinho grita extravagante ao céu as cores destas lágrimas, escondidas de Portugal. Lágrimas contidas e vertidas. Verdes como metade da bandeira. Baptizo-me com gotas de orvalho na madrugada. Gotas rubras côr de sangue como a outra metade de mim. Vivo do lado do mundo contrário ao que parti. Adormeço e acordo num mar aberto. Rude é a face do mar e dos seus filhos homens. Pretos são os xailes das mulheres filhas do mar, viúvas, mães de órfãos, amantes da oração de um coração apertado no horizonte. Olhar mudo e pregado no mar. Mar azul. Mar coração côr de cinza. Mar de saudade e ladrão. Mar amado. Tão próximo de ti me arrepio, mas longe de ti não sei existir, como escreveu Pessoa:

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.