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Cardilium

Cardilium

Um livro que eu lia.

Espreguicei-me e olhei pela luz que em raios me espreitava pelos intervalos da persiana. O dia estava claro e a luz invadia de claridade o meu alento, como se um olhar límpido e vivo de uma mulher, embaciado me profetizasse e acarinhasse. O pós orgasmo é a parecença extrema desta sensibilidade com que me revejo neste acordar promissor. Aprendi a rezar e não esqueci. Apenas não balbucio em ladainha sem sentir o peso das palavras, não gosto. O conteúdo das palavras é o trilho que preciso para me perder da vida, encontrando-me a mim num sítio a que chamam mundo. Desço de mim, misturo-me no burburinho cego de pessoas em hora de ponta. Enquanto oiço as notícias sem as ouvir e avanço escassos metros em fila relembro a minha infância. A escada em caracol perigosa que eu desafiava numa descida alucinante, como um trapezista num trapézio muito alto e sem rede. O cheiro doce a torradas. O robe da minha mãe. O rádio roufenho de madeira iluminado que não era um rádio. Era uma telefonia. O vernáculo abatido na minha cabeça pelo vizinho sargento e ao que parece militar do rés-do-chão. As galinhas, os pombos, a nespereira e as badaladas do sino da igreja. Não sou da cidade, sou do mar com cheiro a terra, do sítio onde o arco-íris se põe e o sol nasce em bátegas fortes e de enxurrada. Por aqui me vou de vinte em vinte cinco metros nesta longa aglomeração de carros com pessoas dentro, que me parecem acabadas de vomitar ou prestes a ter um enfarte, nesta cidade que não anda, onde eu me empresto e fidelizo à classe não pertencente, à classe não votante. E os sofás de duas cores de napa, com naperão nas costas? Era aí que me apetecia estar, recuado no tempo, no sofá que ficava em frente à portada de madeira da janela, da varanda que espiava o terraço. E tinha um livro. Um livro que eu lia.