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Cardilium

Cardilium

Eu, o Martins e o Zé

Faz frio. O frio embarga-me a saudade, congela-a. Há três noites atrás vi o frio em contra-mão, vinha em forma de uma neblina e tinha um ar arrogante, mas triste. O frio faz-me lembrar o Martins. O Martins é um tipo que foi meu superior hierárquico há vinte anos. Era um tipo mais frio que o próprio frio, com os mesmos traços de personalidade e características demoníacas, assentadas num síndrome que ataca sempre os mesmos, os que têm características como o frio. Síndrome por mim baptizada na época com o título:

 

“A mim, ninguém me põe a pata em cima”.

 

O frio e o Martins davam-se bem, era vê-lo empapuçado em camisolas e rodilhas ao pescoço. O Martins era arbitro de futebol uma frustração para ele que nunca passou dos distritais, uma alegria para mim que esperava ansiosamente pela segunda-feira, com uma renovada esperança que algum adepto, ou multidão de adeptos, o tivessem linchado por mim a seguir a um penalty mal assinado, ou a um fora de jogo, que tivesse desvirtualzado o resultado e o esforço da corrida de noventa minutos de uma equipe.

 

O Martins é do tempo em que era possível levar o neto para o escritório e ser avô, ama e colaborador da empresa em simultâneo. Outros tempos, outras realidades, outras conjunturas organizacionais. Passaram vinte anos e não sei nada do Martins há muitos. O que de pior o Martins me fez foi afastar o neto de uns desenhos que lhe fiz, de uns números e palavras que lhe queria ensinar a escrever. Há vinte anos eu tinha acabado de ser pai, tinha o espírito paternal em alta, podia tê-lo usado e treinado no neto. O Martins não deixou como medo de algum contágio que na época eu pudesse ter, contagio que não seria mais, que a irreverência de ter vinte anos. Um dia destes o Zé disse ao Martins que o tempo me fizera Dr.

 

O Martins respondeu: “quem? esse gajo?”

 

Ri-me com o Zé, do frio e o Martins continuarem a ser unha com carne...