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Cardilium

Cardilium

Despertencente

Aqui neste leito me ajeito da dispneia de me sentir acordado horas a fio. Não toco com os meus pés nos teus, agasalhados de pele macia. Já aqui não dormes há muitos anos. Não sei se alguma vez os toquei. Faço amor a olhar a espuma do mar. Na madrugada a lua cresce no céu, ilumina-nos os corpos. Faz frio. O vento fala eloquente e grita a cada rajada. Para lá do mar ou dentro dele, anda uma trovoada em reinação. Só a vejo pelos relâmpagos que respiram. Avisto-a ao longe. Parece-me até ser noutro país donde ela se me exibe, tal é a distância. Não sei se anda dentro do mar, fora dele ou para lá dele mesmo. Vagabunda luz esta despertencente, retórica, contraprova de autenticidade, trovoada muda. Despertencente. Seduz-me esta rara beleza, intocável, que se me anuncia e apaga. Retórica que me pronuncia sem palavras, tantas palavras bem ditas, benditos estes vocábulos. Palavras há que me parecem ter sentidos e vida. Palavras que nos abraçam, beijam e reconfortam. Palavras que são caminho. Contraprova de autenticidade. As trovoadas podem ser silenciosamente belas. Bradam os deuses em silêncio. Mudo e silencioso aquieto-me, abafo em mim o sal que me lava os olhos, em cada lágrima que me eleva a saudade.