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Cardilium

Cardilium

Cortaram o trigo, os meus olhos agora vêm-me melhor…

… Cortaram o trigo, os meus olhos agora vêm-te melhor. O velho armário cheio de pó tem riscado o sítio por onde os livros passam. Está desgastado. É como se a mobília tivesse um calo como o que se tinha outrora, no dedo que pegava o lápis, na época em que ainda se escrevinhava. Um velho carvalho faz sombra e autoriza selectivamente alguns raios de luz de sol a entrar, bem como assim alguns clarões de sombra padecerem, naquele primeiro andar de chão encerado em tiras de madeira. Cobriam-no velhos tapetes gastos e descoloridos. Ali me embriaguei, dias seguidos de noites, embrulhado numa manta aos quadrados que mantinha o frio longe.

 

Li o mesmo livro quatro vezes, obcecado pelo que se escapule numa primeira leitura. Não sei quantas vezes vi a chuva cair pela janela nos campos perdidos de vista e quantas vezes vi o sol enterrar-se na terra trocado pelo erguer da lua. Sei de cor o ranger do soalho ás minhas passadas. Conheço as aranhas pelo desenho das teias. Estou a libertar-me dos destroços do passado. O álcool inebria-me e constrói-me um mundo.

 

Uma vez por dia sou interrompido pela presença da presença nesta solidão. Ela entra devagar sem palavras e deixa-me um tabuleiro sempre igual. Um tabuleiro preto com figuras chinesas avermelhadas. Olho-as centenas de vezes. Já fiz um milhão de histórias daquelas figuras macaenses. O tabuleiro tem sempre a mesma ementa. Silêncio, solidão, recordação, presença, lágrimas, sorrisos, mulheres, amigos idos, cheiros cristalizados, agua, cigarros, e um lápis fino e afiado. As notícias dou-as a mim próprio no mesmo momento em que me dou os bons dias ou boas noites.

 

Recebo nestes anos uma única visita, o padre. Nunca falei de fé ou religião com ele. Acho que me escolhe para falar dos pecados dele. Falamos de socialismo, agricultura, boémia, salvação, castração, escritores, obras, guerra, economia e passado. Passado especialmente, porque o nosso futuro é o passado. Nem sei se é crente ou não. Entendo a minha função para com ele, sou o seu confessionário. Confessa-se pela opinião que tem dos assuntos. Confessa-se pela desilusão que mantêm. Confessa-se pelo desacordo latente. Confessa-se num desabafo que lhe faz bem, e, a mim não me faz mal. Confessa-se pela antiguidade de não valer a pena a mudança. Depois sai sem se despedir. Simplesmente parte e eu meramente fico.

 

Cortaram o trigo, os meus olhos agora vêm-me melhor…

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