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Cardilium

Cardilium

Marear de olhos rasos

Tinha um ar aristocrático. Diziam que tinha sangue real. O bigode retorcido era com a linha de água numa nota de quinhentos reis que dizem existir. Nunca me cruzei com nenhuma. Era de uma família abastada de campos e terras. Tinha um pedaço de rio que atravessava o monte. O rio era o sangue da terra e a terra vida. Tinha saído em pequeno para estudar na cidade. Voltou boémio segundo diziam. Do cimo daquele ar nobre, carregava no olhar bondade e simplicidade. Falava com todos e todos falavam com ele. Tinha o mundo no sorriso. Um sorriso aberto e franco. Usava roupas como as nossas que lhe assentava bem nos ombros largos. Conhecia países que ficavam longe e mulheres ousadas e joviais. Tinha gozado a vida, voltava agora à terra para gozar as cinzas da morte. Dava-se bem com as crianças que o ouviam nas escadas de pedra fria do cruzeiro horas a fio. Qualquer criança sabia mais dele, do que qualquer um de nós. Um dia o meu pequeno disse-me:

 

Pai preciso que saibas o que decidi e começou. Amanhã vou-me embora. Vou-me embora mas vou voltar, como o Sr. Vilar voltou. Vou num barco que tem velas e uma biblioteca. Vou conhecer mulheres mais altas que os homens e vou ser marinheiro. Vou viver dentro do mar e entrar dentro das ondas. Vou salgar a minha boca e queimar a minha pele. Vou aprender a desenhar o mundo. Vou navegar na tristeza e nas ruas velhas da cidade, suspirar de olhos mareados. Vou aprender a alegria das despedidas, sabendo que são somente regressos a outro local. Vou aprender que não pertencemos ao mundo nem a ninguém e viajar nesta viagem chamada vida. Vou ser viajante Pai. Vou menino. Voltarei homem. Virei morrer à terra que me pariu mas existirei no mar. Alegrarei a solidão e a agonia com a sua recordação meu Pai. Entre a distância dos portos lembrarei minha mãe. Em cada sítio direi o teu nome no meu apelido. Serei brasas nesta vida, calor, passos, e levarei entre os dedos os recados que me mandares.

 

Fitei-o nos olhos e abracei-o. Saudoso do regresso disse-lhe: Vai meu filho, bem-aventurado seja o teu caminho.

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