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cardilium

cardilium

silabas desobedientes

Tento criar beleza às silabas. Devagar. Lentamente. É o que deixo de fortuna. É o que fica de minha herança, a tentativa de dar amor às palavras, como se duas palavras, fossem duas bocas ou dois peitos, que se pudessem beijar ou abraçar. Em boa verdade conseguem-no.

Não posso escrever bonito ou demasiado feio. Posso meramente criar beleza em silabas desobedientes de acção.

Posso até falhar como homem, mas se der liberdade às palavras que me habitam, está tudo bem no meu coração, atendi-o.

Acostumamos-nos

Amor é um desábito,

Começa por ser um hábito aquele estado sem palavras que o descrevam,

O tempo depois finge que se distrai e o hábito aparenta se acomoda,

Mas nem o tempo se acomoda, nem o hábito se distrai,

Desabituamos-nos,

Depois recomeçamos tudo de novo e morremos,

Está feito.

Acostumamos-nos.

Bebi até que a revolução se desse

Bebi até que a revolução se desse.

Fiz uma revolução por dia, por hora e uma batalha por minuto.

Bebi até que a revolução se desse.

E deu-se.

Deu-se em estrofes camufladas de liberdade.

Deu-se na solidão necessária.

Deu-se na aprendizagem de mim.

E deu-se na mudança,

Em goles de revolução por dia, por hora e uma batalha por segundo.

E foi assim:

- Bebi até que a revolução se desse -

Dança miúda dança

Dança miúda dança.

 

Dança com a menina que os teus olhos não conseguem esconder.

Dança com a miúda que a desilusão não conseguiu castrar.

Dança com a mulher madura e sensual que dança a: - vida de vida- .

 

Dança com as lágrimas que já secaram e com as promessas que tens por cumprir.

Dança com o teu sorriso,

com as flores,

com o vento,

com o mar,

com a madrugada,

contigo.

 

Dança com o amor,

com a não desistência,

com a saudade,

com tudo o que te constrói,

dança com tudo o que não te devastou.

 

Dança com tudo o que tens para dançar e serás a melhor bailarina do mundo,

e,

é-se,

a melhor bailarina,

quando a valsa se dança como se não existisse outro planeta,

que não essa dança:

 - da porta do coração aberta -

 

Dança miúda dança.

Dança miúda dança.

Dança miúda dança.

opacidade

"... formas opacas, o sombreado nas nuvens quando se atravessam ao sol. Vejo-a chegar, aproximar-se e seguir. A sombra.

 

Nunca me soube bem ter só o sol. Nunca desejei ter só a chuva. Sempre me quis a mim e a alguém que conversasse sobre sombra, acerca do sol. Das nuvens. Do caminho. O que está dentro de mim, sempre foi meu desejo que fosse igual fora de mim. Que alguém o aproveitasse.

 

Apetece-me café. Está longe. Adio. Bebo talvez lá para o final do dia com a geada. Vou ligar ao João talvez me abrace que eu preciso. Não, lá para o final do dia com o nevoeiro procuro-o.

 

É sempre no final do dia, o inicio da minha existência. Formas opacas, sombreiam a noite quando as nuvens se atravessam ao luar. As arvores mudam-se de lugar para de manhã parecerem imóveis outra vez.

 

Opacidades…”

Partida III

sem brilho,

gosto,

desgosto,

sentir,

navegar,

aproximar,

chorar,

ou partir.

 

sem nada com que se desista,

é ter nada com que se exista.

Azulejo

Cada azulejo acrescenta ao desenho final a emoção de como os teus olhos te assentam bem no rosto, em cada cor de cada raio de luar, o teu sorriso espalha-se no azul do Tejo, que passa devagar no fim de tarde , do fim do dia, do fim de mim. 

 

só sei falar de frio

" ... e toda a gente sabe como resolver ou adequar-se ao mundo.

Eu só sei falar de frio, de calor, de lágrimas e sorrisos, de geada, luar, mar e maresia.

Dessas coisas que os outros falam não percebo nada, nem sei se existem, só sei sentir o que sinto ..."

lua apagada

Não sei se acredito na lua enquanto bola branca no céu, se enquanto melodrama que a cadela da minha vizinha faz, se enquanto energia e alto astral daquela mulher que me diz ter a lua dentro do coração, e se sente mais mulher com a lua, mais lua como mulher, mais desejo do que luar, mais viva do que crescente, mais diminuta do que nova, mas lua sempre mais luar.  A lua em mim, são as noites em que me vejo brilhante de lua apagada.