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cardilium

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Tempo IV

A tua voz deixou de ser a tua voz, como aquele velho relógio de sala deixou de responder ao tempo.

 

Deixaste de me visitar todas as manhãs, e todas as noites passei a adormecer na espera que o relógio se amantize com o teu peito, e tu me voltes a visitar todas as manhãs. 

 

A tua voz matou o tempo em que não te ouço. 

 

A preto e branco

Gosto das ruas a preto e branco e o gosto de ver o teu rosto cada dia mais belo.

Gosto do firmamento da cor da Primavera e do cheiro a alecrim entre a calçada, e é a calçada que faz as ruas como eu gosto,

 

a preto e branco.

Esta pele e alma

Quando a tua voz se apaga com o teu olhar, entendo que não foste mais do que uma efêmera passagem da ilusão das tuas próprias necessidades.

Confirmo a diferença entre a aceitação da honestidade do gostar, com a frontalidade que é inexistente na assertividade.

Afinal, existem apenas meras supressões de necessidades, alavancadas na disponibilidade do entendimento egoísta da desumanização da carência.

Fico feliz de ser esta pele que me afaga a alma

Burguês proletário

A questão burguesa que preciso superar.

Não a burguesia que vai a votos de sapatos de berloques, de pullover pelas costas e calça encarnada engomada.
Não essa burguesia que não tem burguês na cabeça.

Falo de uma burguesia emocional, uma burguesia intelectual que me afasta ou afasta de mim pela diferença existencial, cultural e que torna a comunicação maçuda e secante, que me faz não levar a sério as palavras descondizentes com os actos, com os factos.

Há uma questão quase burguesa dentro de mim proletário.

Uma questão solidária e solitária

Somos um país impreparado

Somos um país impreparado.

Não quero por respeito à vida humana e à dor da tragédia, imputar culpas ou culpados politicos aos incêndios e suas terríveis consequências.

Acho que temos políticos impreparados mesmo reconhecendo que alguns terão superior formação e idílicos ideais de humanização social.

Acontece que a política "engole" a competência e torna-a em impreparação decisional.

É assim com a proteção civil. Com a gestão do turismo. Com as chuvas. Com os fogos. Com as licenciaturas que não o são. Com as negociatas com amigos. Com a educação. Com a justiça. Com a saúde. Com as empresas etc.

Competência não é sinônimo de preparação, porque a ambição e a máquina montada engole e torna as pessoas impreparadas. É uma questão de coerência e honestidade intelectual que desaparece em prol dos interesses mercantilistas vigentes.

E é assim com a direita. E é assim com a esquerda e o centro moderado e a igreja etc.

É assim com a ministra demitida e com a que está para vir, e o governo actual e o anterior e o próximo.

É uma questão de honestidade. O poder torna as pessoas impreparadas.

O poder não deixa a humanidade vingar.

excerto de palavras por ver o sol um dia (156)

“… sabes, vou mas é para a serra da Lousã. Compro um rebanho e sento-me a vê-lo medrar. Planto um pezinho ou dois de canábis e entretenho-me com os sonhos. Faço uma cabana, toco e escrevo. Entro às horas que acordar e saio às horas que adormecer. Oiço o vento assobiar, e assobio com o riacho entres as pedras. Tenho prazeirosas conversas comigo, faço as perguntas e dou-me as respostas. Escuto o silêncio e faço-me amigo dos pássaros. Quero lá saber do mundo, só me massacro com isso … “

Fuga

Danço por dentro toda essa música que engulo, que faço ser um vulcão inactivo que desobedece ao destino

Desobediência ao destino, essa fuga feliz de mim próprio.

a decência do vento a tocar-nos

A loucura do momento está presente nesta ausência de anúncio. O segredo é o recato das palavras, a decência do vento a tocar-nos, o embalo suave dos pássaros. 

A felicidade é este chão, este fogo, este céu, este rio, este cheiro, este pinhal, esta estrada, esta foz, este convento, esta praça, esta aldeia, estas estrelas, este silêncio, esta agitação e este abraço prestes de explosão e distância aguardada.

Fotografias

Adoro fotografia.

 

Gosto do mundo que guardam, da perspectiva, da objectividade, do amor que conseguem, dos mil sentires da pintura e do momento guardado de momentos. 


Detesto fotografias onde revejo a minha imagem, os meus segredos e onde exposto, vejo a minha alegre tristeza.

 

Detesto fotografias