Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

cardilium

cardilium

Sítio nenhum

Tantas tentativas disruptivas de colocar o sol tatuado num pedaço de mim que seja.

Ao invés, ofereceu-se-me o mar numa madrugada gentil saboreada de insônia e pranto. 

O muro, caiado de branco cego, continua a descansar-me as costas, entre os barcos que partem e chegam de viagem. Eu, por ali, aguardo que tenha um sítio onde pertencer. 

 

As lágrimas lambem-me como a temperatura amena com que maio se faz

De regresso de uma viagem de vómitos, saliva e suor. Agradeço-me a resistência. Abraço a resiliência. Tantas drogas somadas no meu corpo, processadas na mente viajada em desconhecidos caminhos, sob o medo e a euforia dos sótãos de pensões de podridão, em bairros demolidos de pessoas moribundas. Oiço descrever glamorizada as drogas que tomam jovens gestores, e a abençoada criatividade induzida no sucesso, beleza e descoberta.

Não entendo.  O que conheço é:

- A vida como impossibilidade de ser vida, a impossibilidade de a morte se transformar da morte –  

depois, há os náufragos e os sobreviventes, e o regresso da urgência de corpos desnutridos e magros, em almas incandescentes apagadas temporariamente.

Sentado de viola nos joelhos, tento compor uns versos que celebrem que fintou a vida, quem enganou a morte, quem se salvou dos estilhaços na pele com que aqui chegou.

As lágrimas lambem-me como a temperatura amena com que maio se faz.

O refugio dos meus sentidos está intacto

O refugio dos meus sentidos está intacto.

Ficou como que impermeabilizado à estupidez e, isso é meio caminho andado, para de uma vez por todas, emergir do afogamento tentado da indução da imbecilidade.

Abomino as boas atitudes escondidas em sorrisos falsos desenhadas em teias de palavras e conceitos sem fundamentada sustentação.

Não acredito no desígnio de uma vida boa (ou boa vida mais isso) na leitura de pedras, cartas, “ensonamento” terapêutico, etc etc etc.

Acredito em: - introspeção e  amor - pouco mais do que isso, com as correntes que cada qual quiser usar, mas à borla, que o amor não se cobra, que o amor não se paga.

Devolvido por momentos à raça humana, em amor pela verdade.

Baía de Sines

eu não sei se nesta espera o meu corpo resistirá,

sinto-o a ceder quando me sento defronte para a baía e:

 

- oiço os teus passos que já não podem ser os teus passos,

o teu cheiro que já não pode ser o teu cheiro,

o teu envergonhado sorriso que já não pode ser o teu envergonhado sorriso,

o teu silêncio glorificado transformado em mim no ruído do meu corpo,

na espera que aguardo,

sabendo que não virás mais, mas que me esperas -

 

agora,

restar-me-á a recordação, a saudade e as tardes defronte à baía a olhá-la,

cuidando dos laços que enlaçámos.

Circunspecto

Circunspecto, caminho pelos atalhos da serra que é parte do meu paraíso.

 

 

O paraíso é em mim os vários locais onde:

- como que descanso da vida –

- como que saio da vida –

- como que experimento a morte – que para ser física só necessita de ausência terrena.

 

A morte é sempre que me refugio nos paraísos que celebro. Fico tão vivo espiritualmente que a morte me observa sem me querer interromper a vida. é como se me visse a mim mesmo pela ausência de corpo, e dos sentidos que congelo de tão ebulientes que os sinto na alma.

maleita

Padeço de uma qualquer maleita que transforma o sublime num país que me pertence,

numa praça,

num mar,

numa música.

 

Transforma o belo que me arrebata em algo que não consigo explicar a nenhum ser,

que não me olhe e veja por ele mesmo,

esta maleita que padeço.

transgénico e mortal

falta-me semear muita vida neste dia e nos vindouros,

muito rasgo e lucidez,

dar a cara,

ser feliz,

ser infeliz,

e entender que colher antes de semear,

é transgénico e mortal.

 

13 de Sobral

Uma noite, após um jantar de amigos sugeri irmos à fábrica do braço de prata ver e ouvir o que de bom sempre por lá há.

Num corredor cruzei-me com o Sobral mais novo e, perguntei-lhe se cantava naquela noite, respondeu-me com a mesma sensatez com que ganhou o festival, de uma forma simples, honesta e verdadeira. Sem truques. - Sim canto - 

Tocava naquela noite com ele um pianista cubano amigo das lides musicais, Victor Zamora.

Já antes o tinha escutado com o Júlio Resende, sempre bom, dedicado, fazendo dele por inteiro a sua voz conjugada de coração e alma, um embalo emocional que qualquer canção se torna nele todo, por inteiro. Não ha truqes. É honesto. 

Dos meus amigos um adorou. Eu adorei. Uma não achou piada. A outra, embora reconhecendo qualidade - não é a praia dela -

Gosto de quem verte os sonhos pelo ser. O Salvador verte. Não gosta de encomendas. O 13 de maio graças a ele, deixou de ser uma encomenda.

O Benfica estava encomendado, a visita papal encomendada estava.

Obrigado Sobral pela espontaneidade de génio que albergas e partilhas "com a gente".

 

 

 

Lados de gente

"... vinham homens sem idade, mulheres de mulher mãe, filhos idosos, todas as cores de pele, e seres humanos abraçados uns nos outros, seres humanos abraçados uns aos outros, apátridas de nacionalidade, irmãos de humanidade.

Uns, eram de um lado do mundo, outros do outro lado também, do mesmo mundo sem lados afinal.

Abraçados, celebraram as estrelas presas no céu, sem que se soltassem como as que caíam. 

Abraçados, sorriam por serem pessoas, simplesmente por serem pessoas.

Que bom ser pessoa e as estrelas não se soltarem do céu em forma de morte ..."